Pesquisador faz diagnóstico da falta de pluralidade no meio acadêmico

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Pedro Damázio Franco é mestre em História Social da Cultura e bacharel em Comunicação Social pela PUC-RIO. Pesquisador, ensaísta e articulista para os portais do “Estadão”, “Terraço Econômico” e “Raciocínio Aberto”, escrevendo sobre temas de comunicação, cultura e filosofia política. Atualmente pesquisa iniciativas que buscam fomentar a diversidade ideológica e tolerância política no meio acadêmico.

Por Fábio Campos
fabiocampos@focuspoder.com.br
“Da próxima vez que alguns acadêmicos lhe disserem quão importante é a diversidade, pergunte quantos republicanos existem em seu departamento de sociologia.”
Thomas Sowell
Uma provocação: busca um ambiente com diversidade de ideias e convivência civilizada entre pensamentos opostos? Passe longe das universidades. Principalmente nas áreas de Humanas. Não é uma jabuticaba genuinamente brasileira. O debate sufocado no meio acadêmico é próprio de muitas universidades mundo afora. Atentem para a frase acima de Thomas Sowell, que passou pelos bancos escolares de Harvard, Columbia e Chicago. Onde se lê republicano na provocativa frase colocada no contexto dos EUA, leia-se liberal, direita ou até centro no ambiente acadêmico brasileiro.
Mestre em História Social da Cultura e Bacharel em Comunicação pela PUC-Rio, o carioca Pedro Damázio Franco está se dispondo a enfrentar a tarefa (para muitos, inglória) de não somente explicar os motivos do nó que contraria o próprio fundamento existencial da universidade, mas como também de provocar a oxigenação das instituições cuja origem se relaciona com a disseminação do saber, o conhecimento e, sim, o pensamento crítico e livre de amarras políticas e ideológicas. Afinal, confronto de ideias e pensamentos, superando embates tóxicos, improdutivos, agressivos e, invariavelmente intolerantes, é o que permite à Academia alcançar as suas mais nobres funções.
É claro que o estrangulamento do debate e da pluralidade na Academia acabar por se refletir no corpo e no cotidiano da sociedade. Afinal, são os diplomados nesse meio de pensamento uníssono e, portanto, enviesado, que vai multiplicar essa atitude tanto nas salas de aula do ensino médio e fundamental quanto, por exemplo, nas redações da imprensa e em outros ambientes profissionais.
Focus conversou com Pedro Damázio a respeito do tema em uma entrevista feita via aplicativo de mensagens. Gentilmente, em meio às suas férias fora do Brasil, as perguntas inciais foram respondidas e outras foram acrescentadas no decorrer dos dias.
Seus argumentos apontam que falta pluralidade de pensamento político e prevalece a intolerância ideológica na educação superior. Esse é um problema que atinge as universidades como um todo ou está localizado na área de humanas?
Primeiro temos que reconhecer que a polarização política é algo que está afetando não só a universidade mas a sociedade como um todo. Relacionamentos em várias esferas estão sendo prejudicados – amigos, família etc – então qualquer departamento universitário está sujeito a esses mesmos problemas, seja de humanas ou de exatas. Mas certamente há algumas diferenças cruciais quanto à maneira que isso afeta departamentos diferentes. Por exemplo, não existe tanto assim uma maneira “de esquerda” ou “de direita” de praticar matemática ou engenharia, então controversas políticas não afetam tanto assim o conteúdo dessas disciplinas. No caso dos departamentos de ciências sociais e humanas, por outro lado, o posicionamento político dos professores e pesquisadores está muitas vezes relacionado aos problemas que são tratados e os quadros teóricos que são utilizados. Isso é da natureza dessas áreas de estudo e não há nada de errado nisso por si só. O problema é que se existe a supressão de determinados posicionamentos políticos isso fará com que certos problemas e quadros teóricos sejam negligenciados, restringindo a amplitude do debate intelectual em algumas disciplinas. Nesses casos não é então só uma questão de preservar a boa convivência entre a comunidade acadêmica, mas também a de preservar a qualidade da produção acadêmica nesses departamentos. Há outros problemas que afetam especificamente as áreas de humanas, mas acho que esse talvez seja o que precisa ser reconhecido de forma mais urgente pela comunidade acadêmica.
O simples fato de levantar a questão já gera reações negativas na Academia? Afinal, se há intolerância, ela precisa ser negada.
O tema é sensível la dentro, sem dúvida, mas confesso que pessoalmente não tenho encontrado muita resistência até agora. Acho que por um lado isso tem a ver com o fato da minha iniciativa ser muito incipiente e ainda não teve nenhuma grande exposição, mas acho que tem a ver principalmente com a maneira como estou colocando o problema. Não estou falando em tom de denúncia, não estou propondo ações corretivas ou formando um grupo militante – estou apenas apresentando um projeto de pesquisa. Esse é um problema que precisa ser estudado – é só isso que estou dizendo. É verdade que há alguns que negam que o problema existe, mas até mesmo essas pessoas haverão de concordar que, dado a atenção que esse assunto vem recebendo, seria bom organizar estudos que produzam dados melhores para se discutir o problema. De um jeito ou de outro, não é mais sustentável que um assunto tão amplamente discutido pelo público em geral não receba a atenção devida da nossa comunidade científica. Pelo que estou vendo, acho que ambos os lados do espectro político estão começando a perceber isso, ainda que haja um certo estranhamento à minha proposta vindo tanto da esquerda quanto – curiosamente – da direita também.
Então há reações negativas por parte da direita também?
Como falei, estou apresentando um projeto de pesquisa em um tema que normalmente é evocado com grande carga emocional por ambos os lados. Acho que às vezes um tom mais analítico e distanciado pode causar certo estranhamento para quem já escolheu um lado e, consequentemente, já tem uma explicação para o problema. Só porque a direita tende a discutir mais frequentemente esse problema não significa que as explicações que circulam entre ela estejam imunes a simplificações e generalizações.
Podes sugerir um exemplo?
Bom, um exemplo é não reconhecer a amplitude de fatores que podem contribuir para a escassez de professores de direita nas ciências sociais e humanas. É um erro muito comum quando se observa uma desproporção desse tipo em uma determinada profissão atribuir a situação somente a um fator. É algo que vemos frequentemente vindo da esquerda quando se discute, por exemplo, a escassez de mulheres em uma determinada profissão e se supõe que essa escassez se dá somente por causa de preconceito. Não é preciso negar que há preconceito contra mulheres nessas profissões para aceitar que possam haver outros fatores que também contribuem para essas desproporções, assim como não é preciso negar que haja preconceito contra direitistas na universidade para vislumbrar outros motivos que ajudam a explicar por que eles estão em falta la dentro.
Que outros motivos podem haver?
É difícil dizer agora porque hipóteses diferentes ainda não foram testadas no contexto brasileiro. Alguns fatores podem ter a ver com as características pessoais de indivíduos conservadores ou progressistas que os predispõem a buscar certas profissões. Isso não significa que conservadores sejam menos aptos a exercer a profissão acadêmica – aparentemente não se verifica nenhuma grande disparidade em rendimento acadêmico entre conservadores e progressistas em programas de pós-graduação americanos. O que parece acontecer é que conservadores no geral se interessam pela carreira acadêmica em número menor do que pessoas de esquerda, e isso gera uma desproporção já no ponto de partida. Existe então um processo de auto-seleção que está relacionado a muitos outros fatores além da intolerância. Aparentemente pessoas de direita na maioria das vezes simplesmente não querem se tornar acadêmicos.
Não é possível que pessoas de direita não desejam se tornar acadêmicos justamente porque percebem que a intolerância do ambiente universitário prejudica suas chances?
Certamente, mas de novo não podemos assumir que esse é o único motivo. Nos EUA, por exemplo, pesquisas sobre diferenças de personalidade entre progressistas e conservadores tendem a mostrar que progressistas gostam mais de lidar com ideias abstratas do que conservadores. Grande parte da atividade acadêmica envolve lidar com ideias abstratas, então naturalmente isso pode fazer com que uma proporção menor de conservadores se interesse por esse tipo de trabalho independentemente de haver intolerância aos seus ideais ou não. Enfim, temos que reconhecer que, por mais conveniente que seja reduzir as causas de um problema complexo a somente um fator, isso pode ser contraprodutivo. Dizer que o problema é mais complexo do que parece à primeira vista não é negar o problema nem “dourar a pílula”. Pelo contrário: significa conferir ao problema a seriedade que ele merece de modo a pensar mecanismos realmente eficazes em promover a diversidade intelectual na educação superior. Reducionismo e afobação não vai nos levar a lugar nenhum.
Na Universidade Estadual do Ceará, a professora Catarina Rochamonte, do curso de Filosofia, foi duramente assediada durante a última campanha eleitoral por suas posições liberais a ponto de não haver mais clima para continuar lá. Isso é comum acontecer?
Não estou muito informado sobre esse caso específico, mas certamente existem relatos o suficiente para dizer que o problema é comum, sim. Na verdade um dos motivos pelo qual eu defendo a realização de mais estudos sobre liberdade de expressão na universidade é porque acredito que casos como esse são apenas a ponta do iceberg. Professores e alunos que são assediados dessa forma representam a faceta mais visível do problema, mas existe provavelmente um grupo ainda maior de professores e alunos que conseguem evitar essa perseguição porque simplesmente não expressam suas opiniões sobre diversos assuntos e se mantêm abaixo do radar. Uma das minhas hipóteses é a de que a auto-censura por medo de eventuais represálias é ainda mais prevalente do que os casos de represália efetiva, e isso prejudica a circulação de ideias e debates dentro do ambiente acadêmico. Mas como se trata de um fenômeno menos visível, ainda seria preciso fazer levantamentos mais apurados para averiguar o quão amplo é esse problema e o quanto ele afeta a qualidade do ensino superior.
Você foi vítima de situações constrangedoras como essa?
Pessoalmente nunca sofri algo no nível da professora Rochamonte mas, assim como muitos, sei bem que não é prudente fazer alarde dos meus posicionamentos políticos na universidade. Muitas vezes já divergi de posições levantadas no dia-a-dia acadêmico, mas na maior parte das vezes sinto que a minha discordância não geraria um debate muito construtivo. Talvez essa situação faça com que os alunos de direita que venham a se manifestar sejam principalmente os mais combativos e afeitos à polêmica: minha sensação é que o clima é pouco propício a manifestações de tom mais conciliatório.
Muito se fala da ideologização do ensino médio e até fundamental. Isso é um fruto dessa falta de diversidade? Afinal, boa parte dos professores que vão para a ponta dar aulas para crianças e adolescentes é oriunda dessa estrutura intolerante com outras ideias que não sejam de esquerda.
Não tenho muitos dados sobre qual é a formação que os professores do ensino médio e fundamental recebem na universidade, mas creio que muitos dos problemas que vemos nas escolas decorrem dessa falta de diversidade na universidade, sim. Nos EUA foi averiguado que os departamentos de pedagogia tendem a estar entre os menos politicamente diversos da universidade. Isso naturalmente restringe a amplitude dos debates teóricos que os pedagogos irão se expor durante sua formação, e eles poderão tomar muitas abordagens como dogmas incontestados por conta disso.
A mesma questão acima vale para as redações da imprensa, que, teoricamente, deveriam ser moldadas pela pluralidade, mas parece ocorrer o oposto em boa parte delas.
Aqui a questão realmente pode ser análoga. Se não há pluralidade política nos departamentos de comunicação e jornalismo, naturalmente os quadros de análise que passam a prevalecer na classe jornalística estarão limitados. Além disso, isso também faz com que a classe jornalística não esteja em sintonia representativa com o resto da sociedade, ou seja, não há muitas bancadas de jornalistas que reflitam a pluralidade de pontos de vista que observamos no resto da sociedade. Para mim isso ajuda a explicar tanto a desconfiança que grande parte do público têm apresentado nos últimos anos em relação a veículos da imprensa tradicional quanto a explosão de veículos mais alinhados a um público liberal e conservador no Brasil em tempos recentes. Sinto que muitos jornalistas não suspeitavam nem que existia esse tipo de demanda até pouco tempo atrás.
Essa estrutura fechada, e, portanto, obscura do ponto de vista intelectual, tem condições de enfrentar esse debate que o senhor propõe?
Isso ainda estamos para descobrir, mas pela resposta que tenho tido até aqui estou otimista. Além dos extremos, creio que existe uma ampla maioria silenciosa que reconhece o problema e anseia um caminho adequado para abordá-lo. Estou firme na convicção de que, na medida em que se formar uma plataforma que propicie uma abordagem cientificamente orientada, pautada pela conciliação e pela qualidade do ensino superior, essa maioria silenciosa vai começar a se tornar mais visível.
 
 

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