Ideologia pra viver, por Ricardo Alcântara

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Ricardo Alcântara é publicitário e escritor.

Há duas coisas que a amarga experiência da decepção pode nos ensinar: nunca subestimar a estupidez humana, nem se resignar diante dela. Quanto mais se vê o país quedado a uma guerra visceral contra o óbvio, mais disposto deve estar aquele a quem não foi dado o “dom cordial” da omissão para enfrentar os dissabores de colocar a cabeça para fora da manada e se desviar do curso cego rumo ao abismo de sua própria ignorância.
Ao fim, se valer para as nações o que disse Carl Jung sobre o inconsciente individual – “daquilo que desconheço em mim é que se faz o meu destino” – pode-se dizer que o Brasil precisa se descobrir. Urgentemente.
Depois de ver gente brilhante da minha geração sair em defesa da indefensável transmutação de um partido popular, o PT, numa holding da “roubalheira” – cuja crítica constituía um dos três pilares de seu discurso – tive que endurecer sem perder a ternura jamais ao ver outra parcela de ilustrados se prestar como claque lobotomizada de apoio a um governo de formulações medíocres, fundamentos retrógrados e inclinações violentas (e estou sendo generoso com Bolsonaro).
Ideologia é involuntário. Como sistema de valores, a temos, queiramos ou não. Apaixonar-se pela sua é sucumbir à ilusão terrível de que as coisas possam se tornar fáceis, desde que resultem da “vontade certa”. No entanto, as lições da História (as mais recentes, inclusive) conspiram contra a esperança deslumbrada, sobretudo quando se apoia na centralidade de um personagem, seja operário, capitão ou professor.
Porque os homens somos assim: há de se ter cautela com os que rezam todo dia porque eles se julgam protegidos por Deus, mas igualmente com os que não rezam porque estes se julgam acima da proteção dele. Individualmente, somos um perigo potencial. Sempre haverá maiores chances de êxito quando não tem alguém mandando demais porque o apelo sensato da razão só pode ser ouvido quando ninguém foi escalado para gritar.
A sociedade que abdica do protagonismo coletivo, transfere o intransferível para o personagem idealizado (operário, militar ou professor): a ele atribui o artifício mágico de nos redimir do que somos. Como não cabe no intervalo de uma só geração a tarefa toda de seus próprios ideais, tornamo-nos reféns da vã promessa de conforto que há no arquétipo Pai Protetor, quando a História não se cansa de alertar de que, ao contrário, devemos é nos defender de todos eles.
O bardo genial do Leblon colocou esse gado dócil em seu devido lugar com fino sarcasmo: “ideologia” – clamava, angustiado – “eu quero uma pra viver”. Uma vez rendido ao cortejo protetor de uma manada qualquer, acreditar que dar imunidade ao policial para matar pode nocautear o crime armado se torna um atalho tão curto quanto crer que se poderia dar fim ao residual escravocrata por via de um projeto político refém do mesmo ardil patrimonialista que sugeria combater.
Portanto, antes que você se veja tentado a tomar na veia esse tipo de droga, respire fundo e lembre-se que este é um país onde, há nove dias para a eleição, um juiz federal liberou a divulgação de uma delação premiada (espetaculosa, mas vista internamente como documentalmente nula) de uma liderança referencial do partido de um dos candidatos para tornar-se, poucas semanas depois, ministro indicado do governo que derrotou aquele mesmo candidato. E tem gente com razoável currículo acadêmico que o trata como herói.
O polo magnético da política no Brasil mudou de lado, mas a frequência é a mesma: pouco afeito ao sacrifício voluntário, alheio ao “operacional concreto” da cidadania coo prática, o brasileiro continua refém do pensamento mágico. Aqui, heróis nascem (e morrem todo dia antes que tenham conquistado o pedestal da posteridade) no berço de seu próprio malogro.

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