Legião estrangeira. Por Angela Barros Leal

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Havia uma razão que me levara a tentar aprender francês. Havia uma razão, é certo, mas esqueci qual seria: se assistir, sem legendas, os lentos e elaborados filmes franceses, se percorrer com segurança os mapas turísticos da cidade, se entender as palavras das canções de amor, ou se simplesmente me deliciar com a delicadeza da pronúncia de uma língua feita sob medida para agradar quem a escuta.

Da minha parte, apesar da relativa boa vontade, submeti o referido idioma a tormentos indevidos, compondo, com a cumplicidade de meus colegas de sala, uma legião estrangeira de desajeitados amantes dos escritos de Voltaire, uma gangue de desordeiros pisoteando as estruturas linguísticas de Exupéry, um esquadrão de bem intencionados torturadores desejando extrair o máximo daquela doce língua tão bem cuidada por Proust e Flaubert. Tudo isso sem sucesso.

Na sala demasiadamente refrigerada – talvez a propósito, para testar nosso nível de dedicação ao aprendizado – o mestre se mantinha quase sempre silencioso, avaliando à distância nosso envolvimento nas tarefas.

Deveria ter sido treinado por especialistas, para não piscar diante dos mais dolorosos desmandos, para manter a expressão imutável quando apresentávamos diálogos extraídos a duras penas, gaguejantes expressões idiomáticas retorcidas ao limite da incompreensão, artigos e gêneros toscamente mal colocados. Seu olho clínico avaliava a que ponto poderíamos arrastar as preposições, como lidávamos com a relatividade dos pronomes e o que conseguíamos arrancar de um hermético dativo.

Ansiosa para ouvir um oui, um corriqueiro voilá, ou um encorajador c´est bon, eu me voltava para as complexidades verbais apresentadas, assumindo a missão de identificar as relações e pontos de contato existentes entre passé composé e infinitivo, entre o mais que perfeito e o subjuntivo.

Lembro que demonstrava um nível razoável de confiança apenas no que se referia ao uso do imperativo, indicando talvez alguma vocação autoritária. Distribuía acentos aleatórios sobre as palavras a serem escritas, inclinando agudos para a direita ou para a esquerda, a meu livre arbítrio. Empregava apóstrofos com a segurança fingida de quem antecipava as respostas certas, ou pelo menos desejadas. Mantinha-me indiferente à finalização das consoantes, que tanto podiam se apresentar emudecidas de pavor, como escoltadas pela serenidade pacificadora das vogais.

Ao tentar falar, agrupava três ou quatro letras num conjunto inseguro, sobre o qual impunha todo o peso oxítono de uma boa sílaba tônica, golpe baixo ao que recorria (ou recorríamos) com mais frequência do que o permitido. E allons-y!

A meu lado, um colega transpirava no frio da sala para externar uma simples frase, que soava sofrida como falsa informação. Gemidos e suspiros pontuavam a fileira abatida de palavras saídas com dificuldade de sua boca, puxadas por um humilde sujeito, tendo seu verbo e objetos reduzidos ao nível comunicativo de uma criança beirando – quem sabe – os dois anos de idade.

Outro colega, dotado de menor resistência, enfraquecia diante da tarefa de interrogar um terceiro sobre dados primários: nome, profissão, idade, endereço. A colega à minha frente não conseguia ir além do verbo ser, claro indicativo de sua prisão e condenação a um improdutivo presente.

O mestre dizia non com mais veemência do que certamente gostaria. Devia nos considerar seus carrascos, em uma similar, porém invertida condição, na qual nos víamos como vítimas. No final de cada aula, as camisas amarrotadas pelo suor do esforço coletivo, era possível perceber como continuávamos distantes de desfrutar as valiosas revelações da língua francesa.

Désolée, lamentávamos na porta de saída, pedindo com os olhos seu pardon, humildes como petit clochards. Dava-se conosco a constatação que carreguei comigo: enquanto não nos dedicássemos, avec engagement, a deixar de ser essa relaxada quadrilha de mercenários bissemanais, essa trupe de legionários estrangeiros a desserviço do vocabulário de Molière, jamais aprenderíamos. Pelo menos foi o que aconteceu comigo. Não aprendi jamais: jamé!

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