A política cearense não foi construída apenas por governadores, prefeitos ou líderes de voto expressivo. Ela também foi moldada por personagens que atuaram nos bastidores do poder, responsáveis por articular consensos, sustentar governos, atravessar transições e dar coerência institucional aos projetos que marcaram época.
A série Personagens Estruturais da Política Cearense se propõe a revisitar essas trajetórias com distanciamento analítico, sem hagiografia e sem revisionismo apressado. O foco não está no cargo ocupado, mas na função histórica exercida; não no brilho momentâneo, mas na permanência do método.
São perfis que ajudam a entender como o poder realmente operou — e por que determinados ciclos políticos conseguiram se sustentar no tempo.

Luiz Pontes e o método do poder silencioso
O ex-senador Luiz Pontes completou 70 anos ontem em Massapê, na Fazenda Ajuricaba, espaço que se confunde com sua própria trajetória política. Não se trata apenas de um local de afeto ou de refúgio familiar, mas de um território simbólico onde, ao longo de décadas, vida privada e história pública se cruzaram sem artificialismos.
A Ajuricaba nunca funcionou como palco. Ao contrário, sempre foi bastidor. Um lugar de escuta atenta, de aconselhamento discreto e de decisões amadurecidas longe da ansiedade do anúncio. Em uma política cada vez mais orientada pela exposição, o significado desse espaço ajuda a compreender o estilo de Luiz Pontes: avesso à teatralização do poder e fiel a um método sustentado por confiança, previsibilidade e leitura precisa das correlações políticas.
Foi esse perfil que o colocou no centro do poder cearense durante o ciclo do Governo das Mudanças, ao lado de Tasso Jereissati. Luiz Pontes ocupou, nos dois primeiros mandatos do tucano à frente do Executivo Estadual, posições sensíveis da máquina pública: chefe da Casa Civil e chefe de gabinete. Não como função protocolar, mas como eixo de articulação política e administrativa de um projeto que reorganizou o Estado. No último mandato de Tasso, iniciado em 1999, Luiz Pontes representou o projeto como senador da República.
A Casa Civil, naquele contexto, não era apenas um órgão de coordenação interna. Era o ponto onde se equilibravam técnica e política, onde se negociavam as reformas, se administravam tensões com a Assembleia Legislativa e se mantinha o diálogo permanente com prefeitos e lideranças regionais. A estabilidade do projeto dependia menos de discursos e mais da capacidade de operar acordos duradouros. Luiz Pontes exerceu esse papel com discrição e eficiência.
O chamado método da Era Tasso — marcado pela institucionalidade, pela previsibilidade e pelo respeito aos compromissos firmados — não se sustentaria sem operadores políticos capazes de traduzir decisões técnicas em consensos possíveis. Nesse sentido, a atuação de Luiz Pontes foi estrutural. Ele compreendia que, em governos de reforma, o êxito não está apenas na formulação, mas na sustentação política contínua.
Sua passagem pelo Legislativo seguiu a mesma lógica. Eleito deputado estadual por mais de um mandato, chegou à Presidência da Assembleia Legislativa do Ceará, consolidando um perfil de liderança institucional. Não era um parlamentar de confrontos retóricos, mas um mediador habilidoso, capaz de manter o funcionamento da Casa mesmo em cenários de atrito entre governo e oposição. Sua presidência foi marcada pela preservação das regras do jogo e pelo esforço permanente de conciliação.
Encerrado o ciclo do PSDB no comando do Executivo estadual, Luiz Pontes não se afastou da política. Passou a ocupar um lugar menos visível, porém estratégico: o de referência histórica do grupo liderado por Tasso Jereissati e conselheiro em momentos de transição. Em períodos de redefinição de rumos, sua presença funcionou como elemento de equilíbrio, alguém capaz de oferecer leitura histórica e prudência política.
No interior, especialmente em Massapê, manteve intacta sua base política, nunca rompendo o vínculo com o território que sempre serviu como ponto de retorno. Hoje, essa continuidade se projeta na gestão do filho, Ozires Pontes, prefeito que representa uma nova geração política, com discurso atualizado e linguagem contemporânea, mas sem ruptura com os valores herdados: proximidade com a população, diálogo constante e senso de pertencimento.
A trajetória de Luiz Pontes ajuda a iluminar um aspecto frequentemente negligenciado da política cearense: o papel dos operadores silenciosos, daqueles que não disputam holofotes, mas garantem a sustentação dos projetos. Ao completar 70 anos, celebrado no mesmo chão que acompanhou suas principais decisões, Luiz Pontes permanece associado a esse papel específico — o de personagem estrutural de um ciclo que redesenhou o Estado do Ceará e que ainda hoje é citado como referência quando se fala em racionalidade administrativa, institucionalidade e política de longo prazo.
Ao inaugurar a série Personagens Estruturais da Política Cearense, Luiz Pontes surge como exemplo de um tipo de liderança cada vez mais rara: a do operador político que entende o poder como método, não como performance; que sustenta governos sem disputar holofotes; e cuja importância só se revela plenamente quando se revisita a história com distância analítica.
É nesse plano — menos visível, mas decisivo — que sua trajetória se inscreve na na formação do Ceará contemporâneo.
Nota do editor:
Reconstituir essas trajetórias é um exercício de compreensão histórica. Personagens estruturais raramente aparecem no centro da narrativa pública, mas sua ausência costuma ser sentida quando governos perdem estabilidade, método ou capacidade de articulação.
Ao registrar esses perfis, a série busca contribuir para uma leitura mais precisa da política cearense, iluminando o papel daqueles que sustentaram projetos, costuraram acordos e garantiram funcionamento institucional em períodos decisivos.
Porque, na política, nem sempre quem aparece explica o que permanece.






