Mapa sentimental para navegação pelo Rio de Janeiro; Por Paulo Elpídio

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Aviso aos navegantes ou ode bem comportada à doce vadiagem carioca

A primeira visita ao Rio é uma aventura para toda a vida. A segunda e as que se sucederem são a atualização de lembranças que julgávamos esquecidas. A necessária domesticação das saudades latentes.

Levamos até lá os nossos netos — Paulinha e Thiago — desde miúdos, com eles compartilhamos os mistérios desta cidade sedutora, abrimos as portas dos túneis, percorremos os lugares de sempre, que uma cidade é feita de belezas e de pequenas coisas comuns. Como, aliás, o são todas as cidades do mundo.

Lembro tivessem 5 anos, a primeira vez que puseram os pés no Leblon.

Brincaram na praia, esbanjaram a alegria inquieta da descoberta pelos “shoppings”, pelas ruas, sob o sol, sob a chuva e à sombra dos janeiros cariocas.

Comeram empadas, tornaram-se fregueses da Babuska e dos melhores sorvetes do Leblon. Chá-mate geladinho, tirado na praia. As pizzas da Clipper, o Pão-de-açúcar, o Corcovado. Os pães do Talho Capixaba. O Jobi, o Bracarense, o Belmonte para comidinhas ligeiras e aquele chopp para felicidade dos graúdos…

O Jardim Botânico, um passeio pelas barcas até Niterói para ter de lá a vista mais linda da baía da Guanabara. O Museu do Amanhã, pegar o bondinho no Santos Dumont e fazer o roteiro do Centro. Esqueci alguma cousa? O Gabinete Português de leitura. E o Forte de Copacabana. No Centro, a Colombo!

Depois é aceitar o inevitável: deixar o Rio de Janeiro de volta para casa… As crianças sempre pedem para “ficar um pouco mais”. Pedem o tempo todo por estes favores consentidos, até que nos deixem, ao bater das azinhas crescidas. A hora da partida da velha cidade traz, presente, a ideia do próximo retorno.

O Rio é a cidade-destino para a qual sempre regressamos, movidos pela extrema necessidade que ela nos transmite de pisarmos o seu chão e reencontramos o que esperar sem achar nos mesmos lugares das nossas primeiras impressões. São os apelos distantes da juventude que por lá deixamos ou passeamos um dia. Serão as novas visitas que se renovarão, até não restarem as lembranças quase esquecidas — e as saudades.

Sejam cariocas por alguns dias, insistam, ainda é possível simular sermos “cariocas”, de posse da condição que foram retirando dolorosamente dos autóctones daquela encruzilhada de sonhos acalentadas. Incorporem este estado de espírito que outrora dava o tom, o ritmo e o calor da cidadania de sermos todos, por gisto e afeição — cariocas. Aceitem a aragem fresca, o sol e a vista privilegiada cantados por Tom, Vinicius e Lúcio Alves.

Para os da minha geração, o Rio foi uma metáfora de imagens irretocáveis. Foi desejo ardente, tudo o que só encontrávamos entre a claridade civilizatória das livrarias, dos teatros, dos cinemas. Do prazer de ter entre as mãos, ainda molhados de tinta, os jornais do dia. O Jornal do Brasil, o Correio da Manhã, O Globo, o Jornal dos Sports, quando estas folhas faziam a alegria de crianças e adultos, nas páginas esportivas e nos suplementos literários.

Hoje — quanta pena !— o Rio é apenas uma velha imagem desbotada entre as cores perdidas de um tempo que teima, em não voltar. Como se a víssemos à janela na passagem furtiva de um vagão de trem…

De tanta nostalgia derramada, que fique o embalo de uma melodia simples de Lúcio Alves, tantas vezes ouvida e entoada nos interninhos de Copacabana, ver o beco das Garrafas, de dorida e auspiciosa lembrança…

“Rio de Janeiro,
Gosto de você.
Gosto de quem gosta
Deste céu, deste mar,
Desta gente feliz…”

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