Na tribuna o vereador mais católico, de missa diária, protestava efusivamente contra a pratica contumaz de nomear parentes para exercer cargos de confiança no poder público, o que chamamos de nepotismo. Esta palavra advém da língua italiana do vocábulo “nipote” cuja tradução é sobrinho. Deriva do fato do famigerado e cruel Alexandre VI, Papa que governou a igreja Católica no final do século XV, ter nomeado filhos, sobrinhos e primos como cardeais. Vejamos alguns: seu filho César Bórgia, de dezesseis anos, três sobrinhos, dois sobrinhos-netos, um deles de menor, dois cunhados e muitos outros parentes.
Na época que fui vereador, o presidente da casa legislativa de Fortaleza era o amigo vereador José Maria Couto. José Maria é uma pessoa bem-humorada, carismática e pragmática. Sempre o admirei por ser autêntico, cumpridor da palavra e não se importava com as críticas da imprensa. Incomodado com a fala do vereador, ele pediu um aparte. Quando concedido se pronunciou de forma bem-humorada assim:
– Vossa Excelência sabe que temos que prestigiar a família, inclusive está escrito na Bíblia e como leitor da palavra de Deus, Vossa Excelência deve saber que no evangelho está escrito: MATEUS PRIMEIROS OS TEUS.
O vereador retrucou: só se for na sua bíblia porque não minha não tem isso.
Nessa mesma época, houve o rompimento político entre o presidente da Câmara dos Vereadores e o Prefeito Juraci Magalhães. Juraci cortou substancialmente o repasse dos recursos para Câmara Municipal de Fortaleza. Zé indignado foi para tribuna e se pronunciou:
– O prefeito diminuiu o repasse, estou impedido de pagar toda folha de pagamento. Informo que estão suspensas as férias, as licenças e muitos estão exonerados. A imprensa aqui presente me acusa de ter criado o “trem da alegria” de nomeações. Agora, aviso aos passageiros que o trem parou por falta de combustível, podem desembarcar. Lutarei com todas as minhas forças para o dinheiro voltar. E quando chegar os recursos coloco todos para dentro de novo e se sobrar ainda aumento os vagões.
Outra vez, um vereador protestava contra a criação de uma verba extra para os vereadores, a chamada VDP – Verba de Desempenho Parlamentar. Disse que votaria contra a matéria, e caso fosse aprovada, doaria todos os recursos para Santa Casa de Misericórdia. O Zé perde o aparte e quando concedido, falou assim:
– Muito nobre de Vossa Excelência doar o dinheiro para Santa Casa. Aviso que minha verba também vai para Santa Casa. Só que é para minha “Santa Casa”.
O projeto foi aprovado e o vereador que votou contra nunca doou um centavo da verba para a Santa Casa de Misericórdia.
Ser autêntico é um risco, por isso, quem fala a verdade escandaliza. A hipocrisia e a mentira é mais confortável aos ouvidos. No palco da vida somos atores que escondemos quem realmente somos através da uma imagem de uma honestidade inabalável
e ainda defensores dos valores morais. Como dizia um vereador amigo: nos vestimos com o manto da santidade e por baixo escondemos a nossa imoralidade.
Termino com a pergunta: quem pode abrir o livro de sua vida secreta?