Misoginia e Poder; Por Ricardo Alcântara

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Por Ricardo Alcântara*

O processo definido pelo PDT para a escolha de um filiado seu a representá-lo numa candidatura ao governo do Ceará portava um aspecto crítico: deu igualdade de condições de disputa aos pré-candidatos todos, como aparentemente não poderia deixar de ser, mas havia no grupo uma governadora na plena investidura do cargo.

Por maior que seja sua humildade e disciplina, numa sucessão de poder não há como nivelar, num processo potencialmente conflituoso, a mandatária do cargo com outros partidários, por mais igualmente qualificados, sem expor demais, numa batalha de campo aberto, quem porta o estandarte com o brasão da legião.

Tivesse sido Izolda Cela indicada para buscar sua reeleição, tudo aquilo teria ido parar na caixinha dos constrangimentos passageiros porque a gratificação da vitória tem esse poder transcendente de a tudo sublimar. Como foi preterida, depois de exposta a uma disputa que não primou pela elegância dos gestos, não resultou confortável.

Seguiu-se ao desfecho uma série de reações. A ex-prefeita Luizianne Lins apontou no processo sintomas nefastos de misoginia — o preconceito de gênero, contra a mulher. Circularam vídeos em que Ciro Gomes, o maestro da orquestra desastrada, professava, logo ele, a necessidade de valorizar a participação feminina na política.

A reação mais forte partiu de uma filha da governadora, a ex-secretária executiva da Secult Luísa Cela, com mensagem no Instagram na mesma linha de denúncia: tivera sido um ato de violência de machos brancos contra o que julgou ser um direito natural de sua mãe a uma nova oportunidade de buscar o voto dos cearenses.

Penso que essa moldura cultural não define todas as motivações da decisão. Certamente, nem define as motivações fundamentais. Mas comungo com Luizianne e Luísa de uma mesma interrogação: fosse governador do estado um homem, teria havido tanta falta de zelo com a figura institucional de sua autoridade? Com toda certeza: não.

A linguagem de Ciro, compatível com esse modelão arcaico de macho alfa, permite a aderência em sua imagem da misoginia denunciada (pode até não ser verdade, mas é a cara dele). Por outro lado, a figura fisicamente frágil de Izolda e seu temperamento retraído reforçam sua condição simbólica de vítima desse atropelamento em alta velocidade.

Esses desenhos subjetivos ganham maior relevância no contexto de um processo eleitoral, onde a comunicação tem maior poder de definição. No momento em que os progressistas do país se preparam para enfrentar um governante que faz da violência e do preconceito pilares de sua ideologia, “pisar no coração de uma mulher” não ajuda nada.

Mas essa dissonância cultural é somente o vestuário de um corpo adoecido, um grupo político que aderiu a um negacionismo: a recusa em aceitar a emergência de novos protagonistas políticos. São homens velhos — misóginos ou não — precisando aprender a envelhecer. Envelheçam! — porque envelhecer é uma maneira mais modesta de permanecer.

A opinião do autor não reflete a opinião do Focus*

Ricardo Alcântara é publicitário e escritor.

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