Motta, evangélicos e a Bancada; Por Emanuel Freitas

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Na última quarta-feira (22/10) o já tradicional culto da Frente Parlamentar Evangélica, realizado na Câmara Federal, foi diferente: além de receber a ainda pequena reunião da Frente Parlamentar Católica, presidida por Luiz Gastão (PSD), também contou com a presença do Presidente da Câmara, Hugo Motta (REP).

Obs: refiro-me à reunião, também às quartas, como “pequena” por já ter feito-me presente a ela algumas vezes, entre 2023 e 2025. É juízo de fato, não de valor.

Voltando: Motta estava ali para uma Boa Nova (Evangelho?) a ser anunciado para parlamentares católicos e evangélicos – naquele mesmo dia, poria para ser votado, em regime de urgência, o pedido de criação da “Bancada Cristã” na Câmara.

Oriundo do Projeto de Resolução 71/2025, cujos autores são Gastão e Gilberto Nascimento (PSD-SP), protocolado em 19/09 último, o projeto realiza um sonho antigo dos “irmãos em Cristo” de modo diferente: é que, embora se fale muito comumente de uma “bancada evangélica”, esta nunca existiu como “bancada”, mas como Frente Parlamentar Evangélica. Agora, com o acordo de 398 deputados (30 foram contra, 3 se abstiveram e 81 Excelências não estavam lá), criou-se a Bancada Cristã, guarda-chuva terminológico em que se abrigam católicos, evangélicos e espíritas.

398 parlamentares, sob as ordens de Motta, viram nisso uma “urgência”.

Como justificativa, o texto original diz, genericamente, que:

[…] A criação da Bancada Cristã reforça o direito dos parlamentares de organizarem-se para promover o debate público à luz de seus valores e convicções, garantindo maior articulação e visibilidade às pautas que defendem a família, a vida, a justiça social e a liberdade de expressão da fé. […]  busca dar voz a milhões de brasileiros que desejam ver representados, no Parlamento, seus princípios éticos e espirituais. Portanto, a criação da Bancada Cristã representa não apenas a valorização da fé, mas também o fortalecimento da democracia, na medida em que amplia os instrumentos de participação e organização parlamentar“.

Para fortalecer a democracia, faz-se necessário garantir poder, de liderança e de veto, a lideranças religiosas (cristãs).

Avança-se mais uma casa no plano de poder (parafraseando o livro homônimo de Edir Macedo) dos evangélicos (e dos católicos) em direção aos postos de comando da nação, afim de assegurar a defesa e propagação (hegemonia) dos “valores cristãos”.

O pedido de urgência, e sua aprovação, serviram para produzir novas imagens da esquerda que seria “anticristã” (uma vez que deputados do PT e do PSOL se fizeram ver nas redes a “denunciar” a empreitada de poder das lideranças religiosas com o projeto) e de políticos de direita a bafejar, sem saber muito do que falam, que “estado laico não é estado ateu”.

Com o ato vitorioso, Motta, ao que me parece, faz dois gols: reestabelece sua imagem com o segmento após as rusgas produzidas pela condução do processo da votação da “Anistia” (ele buscará, em breve, a reeleição, e essa gente é bastante numerosa e barulhenta na Câmara); depois das aproximações de Lula com líderes evangélicos, empodera ainda mais as lideranças que dele são radicalmente distantes.

Como Bancada, o grupo terá elementos institucionais para produzir, com mais legitimidade, a ideia de que ser cristão implica não votar na esquerda. Tudo com som e imagens da Câmara.

Tremei!

Emanuel Freitas da Silva é articulista do Focus Poder, professor adjunto de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

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