Mudança histórica. Por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

A integração entre as economias nacionais cresceu. A globalização avançou. A integração social, cultural e política disparou. Fluxos migratórios e meios de comunicação global instantânea fortaleceram contatos. Influências políticas recíprocas, ainda que assimétricas, foram fortalecidas, dando lugar ao globalismo. Trocas comerciais impulsionaram as economias por força das vantagens comparativas (David Ricardo, 1772 – 1823).

O fluxo de mercadorias, capitais, tecnologia e pessoas promoveu transformações significativas. O equilíbrio entre as potências foi alterado. O “centro de gravidade” da economia mundial se deslocou para a Ásia, especialmente China e o Ocidente declina, o que faz lembrar a armadilha de Tucídides, conceito de Graham T. Allison (1940 – vivo), segundo o qual, quando uma potência dominante é ultrapassada por uma rival as duas tendem a guerrear entre si. As condutas humanas e das nações não são como os fenômenos da natureza. A política não é um fenômeno do tipo determinista e as ciências humanas não são nomológicas, como demonstra Karl Popper (1902 – 1994). A tese de Allison expressa apenas uma tendência, mas não deve ser ignorada.

As sanções decretadas contra a Rússia em razão da invasão da Ucrânia, mostraram o poder econômico da Otan, quando coesa. A Rússia se preparou para o embate. Acumulou reservas. É exportadora de trigo. Tem autossuficiência energética, base industrial de defesa com a cadeia de produção mais completa do mundo e preparou a triangulação comercial com a China para substituir as compras e vendas do Ocidente. A dependência europeia do gás russo mostrou a vulnerabilidade da integração econômica. A economia se beneficia com as vantagens comparativas. Até os EUA, exportadores de hidrocarbonetos fósseis, importam alguns tipos de petróleo e tiveram que beijar a mão do Nicolás Maduro e financia-lo comprando o petróleo venezuelano.

A Europa voltará a usar energia nuclear para diminuir a dependência do gás russo. A segurança das nações vem antes das vantagens comparativas. A responsabilidade do Brasil pela mudança climática é muito menor do que a da China, EUA, União Europeia, sendo menor ainda que a da Rússia ou Índia. Mas fomos nomeados os vilões do enredo climático. O debate sobre a soberania brasileira na Amazônia foi posto pelos presidentes da França e dos EUA. Intelectuais, megaempresários e líderes políticos do Collegium Internacional pregam a limitação da soberania das nações (Sacha Goldman, na obra “O mundo não tem mais tempo a perder”, prefaciada por Fernando Henrique Cardoso).

A substituição de importações deve ser repensada. O reexame da relação entre o custo e os benefícios de tal opção não pode ser descartado. Tirar o Brasil do Swift nos colocaria de joelhos. A nossa indústria é excessivamente dependente de componentes importados. Não temos um Sistema de Posicionamento Global (GPS) próprio. Nossa Base Industrial de Defesa agrega muitos componentes estrangeiros, uma vulnerabilidade econômica comum a quase todos os países. Mas os que são militarmente mais fortes não ficam indefesos. Considerando território, população, economia e parque industrial deveríamos buscar mais autossuficiência e mais poderio bélico. Nicolau Maquiavel (1469 – 1527) advertiu: o primeiro dever do príncipe é preparar a guerra, isto é, si vis pacem, parabelum. No mundo a força é a ultima ratio. No passado Rui Barbosa (1849), Olavo Bilac (1865 – 1918) e outros criaram ou participaram da Liga de Defesa Nacional. Hoje não temos nada semelhante.

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