Na ponta dos dedos. Por Angela Barros Leal

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Aprendi a datilografar na Escola de Datilografia Santa Rosa de Viterbo, no Campo do América, bairro Meireles. Não tenho certeza se era esse o nome da Santa padroeira. Talvez fosse Santa Catarina Labouré. Sei que era uma Santa de nome duplo, e que com certeza as aulas aconteciam no Campo do América. Minha mãe me deixava lá três vezes por semana, e me apanhava uma hora depois. Cada dia eu entrava no carro mais orgulhosa das novas habilidades, mais próxima do domínio do teclado QWERTY.

Desnecessário dizer da minha profunda ignorância sobre as razões dessa disposição especial das teclas, embora usufruísse dos benefícios trazido pelo uso do sistema. Havia uma lógica: para quem datilografava com velocidade, quanto mais distantes estivessem posicionadas, umas das outras, as hastes de emprego mais frequente, menor seria o risco do apinhamento delas.

Explico, aos que não haviam nascido naqueles tempos idos: cada tecla pressionada na máquina de escrever erguia uma haste delgada, destacada do semicírculo apertado em que se mantinham todas elas, tendo gravada, na ponta metálica de cada haste, uma letra ou um número. A tecla erguida martelava a fita com a tinta, imprimindo assim a letra no papel. Sistema um passo à frente do que Gutenberg criara na sua Mogucia.

O aprendizado se assemelhava ao estudo do piano, escalas musicais substituídas pelo toc-toc de ASDFG, seguido por QWERTY, a mão esquerda exercitando dedo a dedo para, quem sabe, um dia tocar de ouvido a sinfonia dos escritos, na velocidade desejada de 60 toques por minuto.

Dona Gorete apontava uma régua para os meus dedos, forçando o desempenho. Com o diploma de datilografia ia ser mais fácil para mim conseguir emprego como secretária, ela encorajava, apressando a voz para os ditados, ou afastando da máquina o texto a ser reproduzido, impedindo que eu mantivesse os olhos no teclado.

E lá voavam meus dedos como se estivessem em uma corrida rasa, em busca de algum prêmio que nunca viria. Voavam como dançarinas no palco, ao som da melodia ritmada dos toques/tambores, metralhando as teclas. De vez em quando, as hastes prendiam-se umas nas outras, à frente da fita, antes mesmo de tocar o papel, em um aglomerado apertado a ser desfeito rapidamente com a ponta dos dedos, que saíam do embate sujos de tinta preta ou vermelha, as duas cores do trabalho.

O resultado da dedicação foi positivo. Alcancei os para mim inalcançáveis 60 toques por minuto. Se houvesse um Campeonato de datilografia, com certeza eu estaria entre as primeiras classificadas, a ponta dos dedos fumegando na velocidade da datilografia.

A quase totalidade das colegas, nas mesas vizinhas, eram meninas como eu. Talvez como algumas delas, fui secretária, sim, ao longo de um ano, prestando serviço à escritora Dinah Silveira de Queiroz –, autora dos livros A Muralha e Floradas na serra –, que do Planalto Central enviava crônicas para jornais de todos o Brasil, ao mesmo tempo em que escrevia o livro Eu venho, memórias de ninguém menos que Jesus Cristo.

Mas isso é outra história. O que quero dizer é que, de um dia a outro, datilografar passou a ser digitar, e ao invés de utilizar os dez dedos restringiu-se o processo para apenas dois, reduzindo-se igualmente o tamanho do teclado. Precisei reaprender a conter o movimento automático das mãos, esbarrando, sem querer, em todas as outras letras ao redor da que desejo atingir, produzindo palavras de uma língua alienígena ou criando números e datas irreais.

Não tem sido fácil percorrer o QWERTY e o ASDFG com a ponta gorducha do polegar preênsil, inclinando o dedo mais para dentro, mais para fora, até atingir o ponto exato no qual se chega à letra ou ao número desejado. Como creio no evolucionismo, alinho-me aos que preveem o afilamento dos polegares dos bebês ainda por nascer. Embora duvidando que eles ultrapassem meus 60 toques por minuto, com todos os dez dedos.

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