Nos tempos da forca. Por Angela Barros Leal

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Sei que piso em terreno minado, mas de outra forma não poderia ser, caso eu tenha venha eu me encorajar para ler esse O livro dos enforcados, que tenho em mãos. É tão miudinho, tão esbelto, tão visualmente dotado das inocentes características de outros livros, publicados no mesmo ano de 1929, que à primeira vista nada tenho a temer – não fosse a dureza ostensiva do título: O livro dos enforcados.

Vou dando a volta nele aos poucos, experimentando as bordas, as beiradas, receosa de me aprofundar. As primeiras e últimas páginas divulgam o catálogo da extinta Editora ABC, carioca, responsável pela publicação de coleções de conteúdo moral e religioso: Biblioteca de Ação Católica. Coleção Para Nossas Filhas. Obras Recreativas, Instrutivas e Morais. É oferecido ao Barão de Studart e ao desembargador Paulino Nogueira, “que proficientemente coligiu os documentos históricos sobre os enforcados do Ceará”.

Um Cartão Resposta Comercial, destinado a solicitar livros pelo serviço de Reembolso Postal, oferece algumas das obras bélicas do autor (Guerra do Lopez, Guerra do Artigas), o teuto-cearense Gustavo Barroso, responsável pela portentosa produção de 128 livros, como garante a Academia Brasileira de Letras, cobrindo os campos do folclore, da economia, da política, das memórias, da arqueologia, da ficção e da poesia.

São 18 as narrativas componentes do livro, como informa o Sumário, abrindo e fechando com dois capitães: o Capitão Cara Preta e o Capitão Cebola. As execuções dos que iam “padecer de morte natural na forca” seguem ordem cronológica, iniciando em 1834 e indo até “o ano da Graça de 1855”, como escreve Gustavo Barroso, sendo a execução do dito Capitão Cebola “felizmente a última havida na Província do Ceará.”

Folheando o livro, percebo que o cenário muda em cada uma das histórias. Em várias delas, Fortaleza aparece como pano de fundo, ouvindo soar “o dobre de finados no sino grande da Igreja do Rosário”, trilha sonora do trotar das montarias dos juízes, dos passos arrastados do réu, dos empurrões do carrasco pela “tortuosa rua do Quartel [rua General Bezerril], entre barrigudas casas de taipa, de biqueiras esbeiçadas.”

Fortaleza outra vez, com o “povo miúdo” enchendo a área entre a cadeia pública, a Santa Casa de Misericórdia, “o ateiral da antiga rua Amélia [rua Senador Pompeu] e a rampa que descia para a praia”. Outro “desfile”, no dizer de Gustavo Barroso, se fizera com a multidão seguindo o condenado “pela rua da Boa Vista [rua Floriano Peixoto], a Feira, a travessa das Hortas [rua Senador Alencar] e a rua da Palma [rua Major Facundo], até o largo do Paiol da Pólvora [Passeio Público] junto à Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, diante do mar, no topo da colina.”

Do Crato, de Quixeramobim, de Sobral, das vilas de Jardim e de Viçosa, da estrada real entre Aquiraz e Cascavel, do Aracati (essas últimas, “sem meios para se darem ao luxo de um verdugo privado”), dos povoados e vilarejos vinham os réus para as ruas da Fortaleza, embora a Corte exigisse que as execuções se realizassem no próprio local do crime, “para escarmento dos povos” – em bom português, para dar lição capaz de apagar a vontade de tornar a fazer algo de errado. Ou seja, execuções exemplares.

O escarmento se voltava com maior frequência aos escravos, hoje ditos escravizados, acusados, não se sabe se justa ou injustamente, do assassinato de seus senhores. Subiam ao patíbulo em graus diferentes de comportamento, desde os que exibiam arrependimento público aos que inocentavam outros condenados, dos que viam partir-se o baraço, a corda a ser atada na forca, ganhando assim a Graça Divina, exibida na agitação da Bandeira da Misericórdia, até àqueles os que punham a corda no próprio pescoço, e saltavam no vazio.

A respeito de um desses, Gustavo Barroso narra a sina do “negro Sebastião”, acusado de haver matado seu senhor. Em Sobral, no ano de 1841, caminhara rumo à morte “impávido, de cabeça alevantada”, escoltado por 12 guardas da Guarda Nacional, e encontrara seu carrasco imobilizado pelo pranto. Antes que o juiz pudesse tomar qualquer providência, relata o autor do livro, o condenado, resolvera tudo.

Subiu os degraus, sozinho amarrou a corda à trave enquanto o padre orava em voz baixa. “O réu sorriu, meteu a cabeça no laço e atirou-se no ar. Fazia justiça a si mesmo”. Na continuidade do fato, dera-se extensa discussão entre alguém que impugnara o sepultamento de Sebastião no chão sagrado do cemitério, pois teria ele recorrido ao suicídio, sem aguardar a “morte natural na forca.”

Acontecimentos assim compõem o livro, é o que me parece. Confesso que ainda não tive a coragem de ler por inteiro esse miúdo e esbelto O livro dos enforcados, para poder comentar aqui. Qualquer dia desses hei de reunir forças para a tarefa.

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