
Sobre desinformação, escolha e a difícil arte de escutar
Gera Teixeira
Há um cansaço que não vem do corpo. Vem daquilo que se lê, do excesso, da repetição, da dúvida que se instala mesmo sem convite. Nunca se teve tanto acesso à informação. E, paradoxalmente, nunca foi tão difícil saber em que acreditar.
As notícias chegam prontas, embaladas, carregadas de urgência. Mas nem sempre de verdade. E quando não são, deixam rastro. Não apenas de desinformação, mas de algo mais íntimo: um desgaste que vai corroendo a confiança, primeiro no outro, depois em nós mesmos. A mente, exposta continuamente ao que não se sustenta, começa a vacilar. E vacilar, com o tempo, cansa mais do que qualquer esforço físico.
A mentira isolada é um desvio. Repetida, torna-se arquitetura. Organiza o discurso, conforma a percepção, e, com o tempo, dispensa a necessidade de convencer os outros. Basta ter se convencido. É aí que o problema deixa de ser político. Torna-se humano. E é nesse ponto que dói.
Há quem aponte traços de personalidade, mecanismos de defesa, alterações em processos mais profundos. Pode ser. Mas há também algo mais simples, e mais difícil de encarar. A escolha. Escolhe-se distorcer. Escolhe-se omitir. E, a cada escolha, o limite se move um pouco mais. O que antes incomodava passa a parecer natural. O que era exceção vira padrão. E a consciência vai sendo ajustada, silenciosamente, não à verdade, mas à conveniência de quem a habita.
Existe ainda algo que raramente se menciona. Ver alguém agir com integridade pode, em certos momentos, não inspirar, mas perturbar. O contraste incomoda. E o que não é elaborado vira rejeição, não ao próprio erro, mas ao acerto do outro. É uma das formas mais silenciosas de sofrimento. Reconhecer isso não é julgamento. É, talvez, o primeiro passo para sair do lugar.
A tecnologia não criou esse movimento. Apenas deu escala ao que já existia em nós. E nesse ambiente onde tudo chega rápido e tudo parece urgente, a postura mais difícil é também a mais necessária: não reagir de imediato, não compartilhar por impulso, não tomar como verdade o que apenas impressiona. Há, nisso, uma forma de higiene mental que só o tempo ensina a valorizar.
Há um silêncio que não é omissão. É cuidado.
A verdade não desapareceu. Mas deixou de ser evidente. Exige paciência, atenção, disposição para resistir ao primeiro movimento. Num mundo onde tudo fala ao mesmo tempo, talvez o que mais falte seja aprender, de novo, a escutar.







