O dia da ira. Por Angela Barros Leal

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Ando pensando na aproximação
do novo ano, e no Apocalipse final. Se tal expressão soa como um pleonasmo, ante ouvidos mais refinados, faço a opção de deixar assim mesmo, para acentuar a gravidade dos pensamentos que venho tendo por esses dias, causados pela intensidade dos discursos bélicos, divulgados aos quatro ventos.

São ventos de guerra que sopram de Leste a Oeste, são ventos tempestuosos vindos do Norte e do Sul, proclamando o poderio que move as esteiras dos tanques, que dispara os armamentos pesados, que trata da dissolução dos átomos nas explosões nucleares, que se precipita em uma ameaçadora desconexão digital do nosso universo on-line, deflagrando toda a fusão ou confusão daí decorrentes.

Converso sobre isso com familiares, na hora do almoço.

Exagero meu, afirma um deles, mastigando sua convicção de que nada demais acontecerá. Ameaças vão, ameaças vem, e fica por isso mesmo. Que não seja na nossa vez, brinca outro, que tem viagem marcada para destino fronteiriço com nações beligerantes. Passe o sal, passe o molho, passe o guardanapo que vai limpar nossas bocas, e nossos pensamentos, dessa qualidade de previsão.

Mas os avisos estão à vista, reforço aflita, e só não enxerga quem não quer. Aquele que tem olhos, veja. E o que tem ouvidos, ouça.

Quer ver, insisto eu, leia esse texto aqui, no meu celular, copiado do livro do Apocalipse: “Feliz aquele que lê as palavras desta profecia, e felizes aqueles que ouvem e guardam o que nela está escrito, porque o tempo está próximo.

O tempo está próximo, o livro diz, antes que seja aberto o sexto selo, aquele que assegura: “Houve um grande terremoto. O sol ficou escuro como tecido de crina negra, toda a lua tornou-se vermelha como sangue, e as estrelas do céu caíram sobre a terra como figos verdes caem da figueira quando sacudidos por um vento forte.”

Leio também, em voz alta, indiferente ao ruído dos talheres, como antes da abertura do sexto selo surgiram cavalos de várias cores: o primeiro deles, o cavalo branco, lutaria pela Paz. Os demais vaticinavam o destino desolador dos humanos.

O cavaleiro sobre o cavalo de cor vermelha trazia a espada e a autoridade para tirar a paz da Terra, e para que os homens se matassem uns aos outros. Sobre o cavalo preto, o cavaleiro erguia uma balança, simbolizando a escassez no comércio e a fome. A Morte montava o cavalo amarelo, com o poder de extinguir a quarta parte da Terra. Unidos, os quatro Cavaleiros do Apocalipse traziam consigo a Guerra, a Morte, a Peste e a Fome.

Ainda estou com fome, reclama minha neta, em voluntária dieta. Passa a sobremesa, pede meu marido. Passa o doce de leite. A grossa fatia de queijo. Um pedaço do bolo. Desinteressados todos em saber que se aproxima o dia “em que o céu se recolherá como se enrola um pergaminho, e todas as montanhas e ilhas serão removidas de seus lugares”. O dia em que “os reis da terra, os príncipes, os generais, os ricos, os poderosos – todos, escravos e livres, se esconderão em cavernas e entre as rochas das montanhas.”

Relaxe, comanda o filho, informando sobre a alta do dólar, a queda da Bolsa, no preço que vamos pagar pelo consumo da água, da energia, do combustível que nos leva a lugares propícios ao esquecimento.

Recorro em reforço a outro livro sagrado, cujo nome não ouso escrever por medo da vingança, aquele livro seguido pelos árabes, fieis a seu próprio Deus, e que ecoa de igual maneira as palavras bíblicas sobre o fim dos tempos.

Quando a Terra for fendida, quando os astros forem dispersos, quando os mares transbordarem, quando as sepulturas forem revolvidas…”

Uma queixa única se ergue da mesa. Falar de sepulturas, na hora do almoço! – melhor saber o que houve no aniversário do amigo, no show do famoso Fulano, da maravilhosa Sicrana, quem foi, quem viu, ou quem preferiu ficar em casa, como eu, mergulhada nas notícias e previsões de um futuro próximo certamente devastador.

Está bem, está bem, eu concordo de cabeça baixa, recolhendo minhas informações, guardando para mim as terríveis previsões. Vou calar, embora continue temendo, pela via das cimitarras do Oriente, entre a sobremesa e o cafezinho, a chegada próxima do dia da ira do Senhor.

Angela Barros Leal é jornalista,

escritora e colaboradora do Focus Poder 

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