
“O jovem Nepomuceno tem muito talento e intenção de viajar”, registrou sobre o músico Alberto Nepomuceno um crítico não identificado, na publicação carioca Revista Ilustrada de 15 de junho de 1887. “Mas é preciso que mude o nome”, recomendava. “Um artista não pode, e nem deve chamar-se Ne-po-mu-ce-no”. O comentário deve ter chegado aos olhos ou ouvidos do referido artista, e solenemente ignorado, como bem o sabemos.
Penso que o crítico tinha suas razões, considerando a ambição do rapaz de viajar a países onde o excesso de sílabas e vogais viesse a dificultar entendimento e pronúncia de seu nome. Poderia o jovem tornar-se conhecido como Alberto Bertiot, seu nome do meio, sendo Bertiot uma homenagem do pai a um afamado compositor belga. Poderia também assinar Alberto de Oliveira Paiva, assumindo o ritmo lusitano do apelido materno, sendo a mãe, Maria Virginia, irmã do autor de “Dona Guidinha do Poço”. Tinha suas razões para manter o sobrenome paterno, e com ele ganharia fama.
Por dezesseis anos Alberto foi “o filho do Victor”, o menino-prodígio a acompanhar o pai em suas apresentações de piano e violino, primeiro em Fortaleza, depois no Recife, para onde a família se mudaria em fins de 1874. Com a perda precoce de Victor, vitimado por um aneurisma em 21 de junho de 1880, aos 40 anos, Alberto assumira o posto de homem da casa, responsável pelo sustento da mãe e da irmã, a também pianista Emília Rosa. Deixariam a capital pernambucana retornando para o Ceará, de onde ele seguiria para a Corte a ouvir os derradeiros suspiros do Império. Com seu merecido sucesso a toada se inverteria: Victor Augusto Nepomuceno passava a ser “o pai do Alberto”.
Reflito sobre essa mudança de status trazida pelo tempo, até porque essa é a condição em que me encontro hoje: “A mãe do”. “A mãe da”. Veio daí minha curiosidade em saber um pouco mais sobre o pai do Alberto, que descubro aplicado em seus estudos, metódico em suas aulas, zeloso na garantia de seus direitos e do respeito à sua Arte.
A primeira referência que encontro sobre ele nos jornais cearenses digitalizados pela Biblioteca Nacional data de 16 de janeiro de 1861. Tinha 21 anos e uma modéstia sem idade. “O abaixo assinado, residente nesta capital, se oferece a lecionar as pessoas que quiserem se utilizar de sua profissão de música, rabeca e violão”, anunciava, e envolvia-se no manto cauteloso de quem dá os primeiros passos: “Assegura que não sendo ele um dos mais habilitados, contudo nesses dois instrumentos tem o conhecimento necessário a um professor”.
A situação já era outra em maio de 1862. Novo anúncio informava que Victor continuava residindo em Fortaleza, disposto a auxiliar quem desejasse aplicar-se à arte da música, destacando um diferencial gerado pela experiência e autoconfiança conquistada em pouco tempo: “Obriga-se a restituir toda e qualquer quantia que houver percebido quando, por falta sua, [o ensino] deixe de ser aproveitado em benefício de seus alunos”.
A mesma seriedade quanto a pagamentos aplicaria uma década depois, em celeuma com a capela da Sé, da qual era organista e mastro. Na celebração pelos 50 anos da Imperatriz Tereza Cristina recusara-se a tocar pela quantia oferecida, e não entregara a chave do órgão: “Não era essa migalha que faria quebrar o tesouro municipal, nem os pobres músicos tornar-se-iam ricos com ela”, registrara, ainda ofendido, no jornal Pedro II. E “se eu tivesse recebido ordem escrita do Sr. Vigário Geral para entregar a chave do órgão, eu o teria feito”. No dia seguinte vira-se exonerado “a bem do serviço público eclesiástico”.
Em abril de 1874 um novo embate se fazia conhecido no jornal Cearense: “Deixo de ser professor das pensionistas do Colégio da Imaculada Conceição visto não poder continuar naquele emprego sem aumento de ordenado”, informava Victor. No mês seguinte o alvo era o aniversário de consagração do Arcebispo, festa para o qual o ajuste financeiro inicial fora se desfazendo à medida que se somavam os intermediários. Mais uma vez não cedera. Tinha seu renome e uma família a manter.
Os fatos repercutiram no disse-me-disse da pequena província. Os trabalhos como afinador de piano e professor de música não davam a ele a tranquilidade necessária para compor. A escassa harmonia com os clientes deve ter influído na decisão da mudança para o Recife, onde introduziria a música clássica, o filho ascenderia na escala musical, e onde faleceria antes de se saber “o pai do Alberto”, sua maior criação.
Penso que as lições de profissionalismo devam ter servido ao rapaz, formado nos acordes paternos de dedicação à música. Daí o insucesso do crítico carioca em propor mudança no nome do jovem pianista. Filho de quem era, seria sempre, e com grande honra, Alberto Ne-po-mu-ce-no.








