No Relatório da Diretoria Geral de Higiene do Ceará, referente ao ano de 1920, encontram-se listadas 31 plantas de prédios recebidas pela instituição para análise das condições de “asseio, instalação de sentinas, remoção e asseio de vacarias, escoamento de águas servidas, etc.”. Todas as plantas tinham sido aprovadas, inclusive a de uma casa “a reconstruir, na Praça do Carmo, de propriedade de Jeremias Arruda.”
E que casa era aquela.
Um verdadeiro palacete, capaz de abrigar com grande conforto e cuidado os dez membros da família do bem-sucedido comerciante. Um palacete que dispunha de capela própria – apesar da vizinhança com a Igreja do Carmo –, uma construção que utilizava em sua obra peças importadas, e que se destacava na cidade com pouco mais de 77 mil habitantes.
Suas dezenas de portas e janelas, quase todas com sacadas, voltavam-se para a lateral da Igreja. Sobre o porão alto erguia-se a casa residencial. O acesso a esse piso superior se dava por uma imponente escadaria de ferro, recurva qual a cauda de uma sereia, sem identificação do fabricante ou ano de produção: esse um dos tantos “mistérios” sobre a construção do palacete – entre os quais o autor de sua planta, como disse o arquiteto Liberal de Castro, associado ao Instituto do Ceará, responsável em 2003 pela execução da primeira reforma que tentaria devolver o prédio à condição original.
O palacete havia sido vendido por Jeremias Arruda ainda na década de 1920, em meio a um rumoroso processo contra ele e seus negócios, que o arrastaria à falência. A honestidade de Jeremias seria declarada ao fim de 35 anos de árdua luta judicial, quando ele já contava com 70 anos de idade, o edifício já se encontrava em triste situação, e sua família trocara o Ceará por outros estados.
Em 1967, o palacete passou a sediar o Instituto do Ceará, que vinha de um prédio no bairro do Benfica. Antes disso, pertencera ao Banco Frota Gentil, que o alugara para ser utilizado como Ginásio Municipal, no início da década de 1950, levando a inevitáveis alterações físicas. Crianças e adolescentes ocuparam suas salas e antigos aposentos domiciliares, causando os danos inevitáveis.
Não havia novidade no percurso de degradação do prédio. Antes ainda, em 1929, o palacete pertencera ao Banco Ultramarino, que naquele ano tivera aprovada pelo Governo do Estado sua adaptação para abrigar a Secretaria de Polícia e Segurança Pública, a 1ª Delegacia de Polícia, o Gabinete de Identificação, a Inspetoria de Veículos, o quartel da Guarda Cívica. As mudanças incluíram, segundo a Mensagem do Governo à Assembleia para o ano de 1929, “reforma interna, caiação, pintura, calçamento do pátio, pavilhão para instalações sanitárias, xadrezes, etc.” Xadrez, xadrezes.
Não são muitas as edificações centenárias de Fortaleza. Qual teria sido o destino do palacete de sonho de Jeremias, não tivesse sido ocupado a tempo pelo Instituto do Ceará, entidade formada por pessoas que souberam reconhecer seu verdadeiro valor, e que partiram para conseguir a devolução à cidade de tão significativo patrimônio.
Se o que escrevo pode estar soando como uma matéria editorial, que assim seja. Minha emoção é real por ter tido o privilégio de acompanhar, ainda que de longe, o avanço da reforma, vendo ressurgirem aos poucos os traços originais: os tons claro-escuros do piso em acapu e pau-cetim, desenhando o efeito de trompe l´oeil, enganando a vista com um inexistente movimento ondulatório que deve ter divertido os olhos de Jeremias Arruda.
Tive a alegria de ler claramente as iniciais dele e a data de 1920, demonstrativas de seu orgulho pela obra, inscritas ambas no piso, e a cruz traçada no teto indicando o local onde havia sido a capela. Presenciei a claridade penetrando outra vez pelas transparências no que eu conhecia como telha de vidro, aprendendo que se chamam de fato lanternim. Comemorei o trabalho de recuperação da escadaria de ferro, dos vitrais coloridos nas bandeiras das portas, dos ornatos minuciosamente restaurados para compor o perfil original da casa.
Chegou a reforma a tempo para a comemoração dos 139 anos de existência do Instituto do Ceará, fundado em 4 de março de 1887 por doze intelectuais cearenses, entre os quais o Barão de Studart – que sem dúvida celebraria tal momento. Foram muitos os profissionais que se envolveram diretamente na execução do projeto, fazendo render ao máximo a contribuição de uma emenda parlamentar da deputada Fernando Pessoa e os recursos repassados pela Secretaria da Cultura do Estado.
Está aí, a ter continuado o processo de recuperação, o prédio do palacete da Praça do Carmo, adequado a receber a visitação dos que valorizam a história da brava gente cearense, pronto para resgatar a memória da realização imortal de Jeremias Arruda.







