O que Guardamos. Por Angela Barros Leal

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Por puro acaso, li outro dia uma frase que gravei: “Você é o que você guarda”.  Coincidentemente, e porque me conhece bem, minha filha me enviou a crônica Preciosas e sem sentido, de Ruy Castro, publicada na Folha de São Paulo, tratando do tema. O escritor guarda um livro em tcheco (idioma que não fala), duas baquetas de bateria e um par de castanholas (instrumentos que não toca), uma coleção de cinzeiros e relógios de mesa (que não usa, nem funcionam), entre outros objetos igualmente sem propósito. 

Antes de ler a crônica, em mais uma coincidência, eu estava às voltas com o desafio de arrumar o guarda-roupa, missão a que me proponho de tempos em tempos, quase sempre em período de chuva. Quando chove por aqui, os céus se abrem, a terra submerge, as madeiras engordam, as portas emperram, e lá vou eu arrumar o guarda-roupa, impelida a pôr em ordem gavetas e prateleiras.

Guarda-roupa é um modo de dizer. Há muito além de roupa, e olhe que essas já são muitas, porque preservo da roupa de batizado dos meus filhos ao primeiro par de tênis deles, do vestido que usei nos 15 anos da minha filha ao vestido de casamento dela. Sou guardadora, como era meu pai, meu avô, alguns de meus irmãos – e nenhuma das irmãs.

Eu guardo. Elas se desfazem. Percebo o sistema binário, o humano zero-um que nos rege, contra ou a favor de tudo. Incorporo-me ao grupo dos que preservam memórias nos objetos, insatisfeita com a permanência apenas na lembrança.

Guardo o que me traz boas recordações familiares, de roupas a papel de bombom. Guardo cartas e documentos que meu pai guardava, e que me passou ainda em vida, coração partido por se desfazer deles. Maços de cartas trocadas entre a família, meio século atrás. Carteiras de identidade vencidas, carteiras de motorista sem destino, títulos de eleitor sem votos, agendas de endereço com nomes de pessoas que não conheço, ou que já esqueci, agendas diárias com a contabilidade de compromissos passados. Tudo isso guardo.

Guardo aquilo que não sei como jogar fora, como os livrinhos de missa de sétimo dia de familiares, ou de pessoas queridas. Não consigo encontrar uma forma justa de me separar deles que não seja na fonte, evitando recebê-los, recusando a oferta ali mesmo, nos bancos das igrejas. O que sei que não vou conseguir fazer.

Guardo, sob a pilha de blusas de malha, páginas soltas com rabiscos das crianças, filhos e netos, aqueles desenhos com a casa feita a partir de um triângulo, a fumaça de uma chaminé (que nunca viram ao vivo) despontando do telhado, diante da qual uma árvore monta guarda sob um sol de raios pontudos.

Nas gavetas do meu guarda-roupa mantenho uma coleção desordenada de fotos 3×4, antigas, a família caminhando na vida, do rosto infantil ao jovem, daí ao quase adulto, fotos com tempo de validade vencido, mas que guardo mesmo assim.

Por incrível que pareça, guardo na estante meus cadernos de redação do Colégio, e os primeiros livros inteiramente meus, recebidos de presente de Natal, ou de aniversário. Um deles, ainda hoje me parece enorme, tem a capa revestida em tecido listrado, branco e vermelho. Outro traz lendas árabes para crianças, e eu juro que as ilustrações, em fios dourados, ainda brilham. 

Dentro das bolsas, mantenho tudo que dentro delas estava da última vez que utilizei. Se vou usá-las de novo, reconstituo dias inteiros de passado lá dentro: em quais eventos estive, que recomendações médicas recebi, as notas fiscais das compras feitas, chaves e batons que julgava ter perdido.

Pensando bem, posso me encontrar próximo da linha vermelha da acumulação, da manutenção sem sentido de tudo aquilo que não consigo me desfazer, ou que considero interessante – e minha classificação de interessante é extensa. Com a diferença de que não me deixo soterrar pelos guardados, mantidos por trás de portas e gavetas e prateleiras. 

O que guardamos não nos define, e desminto a frase que li. Somos mais complexos do que isso. Mas bem que as coisas “preciosas e sem sentido”, como define Ruy Castro, dão uma boa pista de quem somos – e do trabalho que terão nossos descendentes na hora de guardarem ou (o mais provável…), se desfazerem delas. 

 

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