“O que será do amanhã”, a crônica de Angela Barros Leal

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Diariamente tomo café com minha filha. Minha xícara ao jantar. A dela, no café da manhã do dia seguinte. Estamos separadas por mais de 15 mil quilômetros e 14 horas de fuso horário, eu no Brasil, ela na Austrália.

Para chegar até lá, são horas e mais horas de trocas de avião, escalas em diferentes aeroportos, e um voo que parece não ter fim, desenhando no globo um sorriso aéreo, de Santiago até a Antártida, e de lá até Sydney, rompendo as linhas imaginárias dos paralelos e meridianos, sem nenhum ponto de referência que não o gelo e a constante massa de água, em todas as suas direções e abissais profundidades.

Mas não é sobre isso que quero falar. Não é a geografia que me interessa agora, nem os hábitos e costumes dos cidadãos australianos, dos quais quase nada sei, mas sim sobre a peculiaridade de estarem eles, literalmente, à frente do nosso tempo.

Três carros se acidentaram na ponte, minha filha está dizendo na tela do meu celular. Hoje. Agora. Na minha hora de jantar. Digito as palavras chave e lá está o vídeo de um veículo que acabou de explodir sobre a mais icônica ponte de Sydney, ameaçando incendiar também os carros por perto. Chamas e fumaça escurecem o céu matinal.

Saber que tudo isso está acontecendo amanhã é um tanto intimidador.

Ela me conta o que fez ontem – o meu hoje, porque ela vive e se move no sábado enquanto eu me espreguiço na véspera, na noite de sexta-feira.

Ela diz que está chovendo, e eu vejo a janela da casa dela embaçada por um excesso de umidade que ronda cem por cento. Eu digo que aqui também chove, como se uma nuvem única nos encobrisse, do Brasil à Austrália, extraindo do comentário uma sensação de ilusória proximidade.

Várias vezes já brinquei com ela: quais os números vitoriosos dos sorteios semanais; quem vai vencer tal ou qual partida internacional; como vai ser a passagem de ano aqui, depois que os céus de lá se iluminaram em uma prodigalidade de fogos coloridos; essas bobagens sem importância.

Por uma década, quando morava no Canadá, ela residiu cinco horas no meu passado. Eu era o futuro dela, mas pelo menos vivíamos o mesmo dia. Hoje não. Hoje é ela meu futuro, refletida na tela de cristal, informando do que está por vir, trazendo notícias do dia que por aqui ainda está para nascer.

Podia ser mais extremo, me consolo. Ela poderia estar residindo em Aukland, na Ilha do Norte da Nova Zelândia, 16 horas à nossa frente, última parada de terra firme antes da International Dateline, a linha internacional imaginária que fatia as datas no mundo, cortando irregularmente, de Norte a Sul, as águas sem terras do Oceano Pacifico, assinalando até onde é hoje, e até onde já é amanhã.

O fato de conversarmos em dois tempos parece nos dar perspectivas inesperadas dos acontecimentos, ela sabendo coisas que ainda não sei. Daí o meu desejo de perguntar a ela, como perguntaria a uma pitonisa, o que está acontecendo amanhã em relação a mais uma dessas tantas guerras que muitos países não se cansam de provocar.

Ela arrisca hipóteses bem fundamentadas. É professora de Relações Internacionais e conhece o assunto. Usa termos técnicos para definir o que eu, leiga, chamo de absurdo, de desrespeito, de atrocidades. O que ela prevê parece ser visto com olhos experimentados de vidente. É uma guerra de raiz milenar, ela diz, como foram outras guerras chamadas mundiais, e em nossa sintonia transoceânica, transcontinental, temo por esse passado onipresente assombrando nosso futuro.

Por enquanto, lá e cá, seguimos apreciando os desdobramentos do conflito como simples curiosos, vizinhos mais próximos ou mais distantes, debruçados sobre o peitoril de nossas janelas informatizadas, alimentando-nos do sofrimento alheio no café, almoço e jantar.  Olha só o absurdo que estão fazendo, nos dizemos ofendidos, olha que desrespeito, quantas atrocidades cometidas, protestamos revoltados, entre uma garfada e outra.

Enquanto cruzo os braços, celular domesticamente apoiado na garrafa de café, vejo o carro na ponte de Sydney incendiar-se, ameaçando explodir os carros vizinhos, espalhando pelos ares matinais fogo e fumaça – do mesmo jeito que vejo as dores e perdas nos campos de batalha do Leste, rumo ao resto do mundo, acontecendo amanhã de manhã.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

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