
Ali Akbar foi o derradeiro jornaleiro “à criée”, envolto pelos vespertinos, como se fossem armaduras da Cavalaria, a circular pelas ruas de Paris.
Conheci-o, pelos idos de 63/64, circulando entre as mesas dos “bistrots” do Quartier Latin. À mostra, “la première” do Le Monde, com as manchetes do dia. Ia chegando, com discrição e deixava em cada mesa um exemplar. De retorno ia recebendo os francos em contado: 1,20F em moedas deixadas pela frequesia habitual. A voz educada de Ali deixava ouvir um sopro anunciado” “MONDE!”, assim, com a intimidade que o levava a omitir o “LE”…
Ali estava registrado tudo o que, na visão francesa, antropomórfica, diriam os críticos mais rigorosos, corria mundo afora. O Le Monde era o espelho da inteligência francesa, obra esculpida, por Beuve-Mery, na forma primitiva da mídia, em tinta e papel e dotada de ideias, discriminações civilizadas e arroubos de pós-modernidade.
Aninhávamo-nos, estudantes da rue Soufflot, encharcados de doutrinação à la carte, no “Le Sorbonne”, trincheira de resistência contra os males de mundo. Daquele reduto, movido a café, conseguíamos explicar e esclarecer todas as controvérsias com as quais a humanidade se debatia. Líamos Marx e outros marxistas em moda, em grupo. A social-democracia já ressumava as intenções consagradas pela Escola de Frankfurt. Éramos, os daquela roda, fundamentalistas, como ocorre aos jovens na manifestação dos seus impulsos de fé e das suas erutações dogmáticas. Alguns de nós sararam com o tempo daqueles sintomas alegres, com certo ânimo combativo, embora preocupante. Alguns.
Ali, em uma das mesas das quais nos apropriáramos em nome de uma revolução de fantasia, alimentada por leituras indisciplinadas, li no dia 2 de abril de 1964 que o Brasil lutava heroicamente pela democracia, com uma coluna de tanques que subia das Gerais para o Rio de Janeiro, aclamada ao passar pelo Aterro do Flamengo pelas tradicionais famílias cariocas…
Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.





