
Atualmente no Brasil o movimento conservador em maior ou menor grau tem uma característica em comum, que é a defesa de um liberalismo econômico clássico, baseado nas ideias de Smith, Ricardo e mais recentemente com influências de Friedman, Lucas, entre outros autores clássicos e muitos vencedores do prêmio Nobel. Acredito que esse choque de liberalismo clássico é importante para a economia brasileira, tendo em vista nosso histórico de dependência do Estado em vários setores da economia.
Entretanto quando analisamos o cenário global, parece que esse pensamento econômico clássico não é mais mainstream, muito pelo contrário, parece que nós estamos sendo os seus maiores defensores, por mais irônico que isso possa parecer. Vejamos as principais potências econômicas e suas contradições com teorias que foram criadas ou propagadas por eles.
Na teoria econômica clássica a prudência fiscal é um elemento fundamental da política pública, tendo em visto os problemas inflacionários decorrentes do aumento desenfreado de gastos públicos. Ironicamente os Estados Unidos vem incorrendo em déficits cada vez maiores nos últimos anos com o objetivo de aumentar seu crescimento econômico com uma “mãozinha” do Estado. Em 2018 o déficit chegou a USD 779 bilhões e em 2019 fechou em USD 984 bilhões.
O Japão conhecido como a ilha do liberalismo econômico do oriente por sua rápida industrialização no século XIX e por ter servido de exemplo para nações como Cingapura, Coréia do Sul, Hong Kong, Taiwan e China também vem adotando políticas longe do textbook ortodoxo. O Banco Central do Japão vem adotando uma política de compra de corporate bonds a taxas negativas de juros, ou seja, o BOJ passa a comprar a dívida das empresas como maneira de impulsionar o investimento e o consumo do país. Obviamente a intervenção no mercado monetário e de títulos dessa maneira provoca, de acordo com o liberalismo clássico, uma alteração nos preços dos ativos e consequentemente um desequilíbrio no setor financeiro.
A União Europeia, em busca de sair da última crise dos títulos soberanos, iniciou uma política chamada quantitative easing, a qual significou a compra de títulos de governos e títulos de instituições financeiras, injetando semanalmente 60 bilhões de euros dentro da economia da zona do euro, abrangendo grandes economias como a Alemanha, a França e a Itália.
Seja por meio de políticas fiscais ou políticas monetárias, o que acompanhamos na prática nos últimos anos e continua a ser um modelo de atuação dos Estados desenvolvidos é que o modelo clássico de liberalismo baseado da década de 1970 e 1980 ficou para a história. Sejam por motivos políticos ou por motivos de proteção de crises, as nações passaram a adotar o que podemos chamar de “Liberalismo Necessário”, onde políticas ortodoxas e heterodoxas, liberais e keynesianas se entrelaçam e são executadas conjuntamente, para de um lado manter a confiança dos agentes e do outro para estimular o crescimento.
O que se pode observar é que as nações adotam políticas econômicas de acordo com suas falhas de mercados locais e de acordo com o nível de tolerância da população a arranjos heterodoxos, mas um objetivo continua o mesmo, o crescimento econômico e o desenvolvimento das sociedades vem em primeiro lugar, independente da teoria usada.
Esse texto pode parecer uma crítica ao liberalismo clássico, mas não o é. A visão pragmática que se desenrola nas principais economias do planeta é a mesma que sempre existiu, que não existe certo ou errado quando falamos em atuação do Estado dentro da economia. Cada momento da história nos ensinou que existem épocas onde o setor privado se tornou o grande motor da economia mundial, como foi a década de 1980, e existiram outros momentos onde o Estado teve sua participação como fundamental, vide 1929 e 2009.
Hoje vivemos uma mistura, o que podemos chamar de interdependência complexa, onde o Estado procura usar os liberais e os liberais procuram usar o Estado, no qual o objetivo é não deixar a música parar de tocar.







