Política externa e seus agentes privados. Por Igor Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Nas últimas semanas, acompanhamos o Governo Federal, por meio de sua política externa, tentar resolver um “embrolho”, ocorrido em Angola, com as filiais da Igreja Internacional do Reino de Deus – IURD. Apesar de ser uma situação delicada, ocorre de fato uma cisão naquele país, e todos os bens, os templos e os ativos da igreja foram literalmente sequestrados, seja pelo governo ou pela direção local da igreja.

Problemas à parte, o governo brasileiro designou o vice-presidente Hamilton Mourão para dirigir-se a Angola com o objetivo de resolver a situação, tendo em vista que se trata de um problema binacional, que obviamente interfere nas relações entre os dois países.

Nesse ponto é que se iniciam as divergências e muitas críticas, sobretudo da imprensa, com a visão de que o governo brasileiro não deveria dispor seu tempo, seus recursos e sua credibilidade para resolver um problema de um agente privado. Essa visão é, a meu ver, a mais antiga e retrógrada política externa existente no planeta, que geralmente finda em acordos celebrados, cerimônias comemorativas e movimentos de “etiqueta” que pouco geram efeitos benéficos ao país.

Não é de hoje que nações como a Grã-Bretanha e os Estados Unidos dominaram o planeta séculos a fio por meio de uma política externa ativa, que parcialmente era baseada em cerimônias e acordos entre governos. Entretanto, o que efetivamente colocou essas nações dentro de um contexto internacional de poder e de riqueza foi a defesa e a proteção dos seus interesses ao redor do planeta. Quando faço referência a “seus interesses”, ressalto a defesa dos interesses dos agentes privados nacionais, que por muitas vezes possuíam negócios nos ‘quatro cantos do planeta’.

Não foram poucas as vezes que os americanos e os ingleses operaram com embargos, taxações e que muitas vezes travaram lutas armadas para defender os interesses de suas empresas e de seus agentes nacionais no exterior. A visão é geoeconômica e clara, quanto mais ricas e poderosas são as instituições nacionais, públicas ou privadas, e quanto mais elas se expandem em outas nações, mais poderosa e rica torna-se a nação a que elas pertencem. Partindo dessa premissa, o Foreign Office britânico e o Department of State norte-americano têm uma política clara e ativa de defesa incondicional dos seus “agentes nacionais”, sejam eles igrejas, empresas, fundações ou mesmo pessoas físicas no exterior.

A China e a as diversas nações que sempre fizeram parte da União Europeia comungam dessa política geoeconômica há anos, e é muito clara a visão de lobby para conquistar seus objetivos estratégicos nacionais, sejam eles públicos ou privados. Neste contexto é que se vê a cooperação entre o Estado e seus membros em um jogo de ganha-ganha, no qual o poder da influência passa a cooperar para garantir objetivos comuns. Vale lembrar que grande parte dos recursos obtidos em Angola no passado, pela IURD, terminava sendo enviado ao Brasil; ou seja, isso aumentava nossa reserva de dólares e em algum momento tornava-se um investimento novo no país.

Não estou aqui analisando a moralidade deste aspecto, mas sim meramente externando uma visão geopolítica e geoeconômica investida em toda essa situação. Este momento é de fato ímpar para mostrar que o Brasil pode sim defender os interesses de seus “nacionais” e que existe uma política geoeconômica séria para o exterior. Nessa visão, não podemos sucumbir ao pensamento antigo de política externa cômoda e meramente protocolar; caso contrário, seremos ‘engolidos’ pelas nações do G20 que não pensam duas vezes para usar o poder do Estado sobre o interesse público e privado, não importando onde estejam.

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