Priscila e a disputa pela disputa ao Senado

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Os dados da pesquisa do DataFolha sobre a ainda incerta corrida pelo Senado Federal, divulgados nesta terça (24/03), além da absoluta liderança de Cid Gomes (PSB) no cenário em que seu nome aparece (56%) e, após ele, a excelente posição de Capitão Wagner (UNIÃO) nos dois cenários sem o nome de Cid (55 e 53%), trazem dois elementos que devem ser destacados:

1-os números não tanto bons para o governismo – Eunício Oliveira (MDB),  com 37% e logo após Wagner, numa segunda colocação no primeiro cenário; Junior Mano (PSB), empatado com José Guimarães (PT), com 29% no segundo cenário, e Roberto Claudio (UNIÃO) em segundo lugar, logo após Cid e seguido de Eunício, no terceiro cenário – tudo isso dá mostras de uma fortaleza da oposição sem Cid na disputa e, mais do que isso, os governistas que aparecem não são os candidatos dos olhos do governo;

2- a oposição está bem posicionada (ao se considerar as posições de Wagner e Roberto), mas o polo bolsonarista dela, ou da direita mais tradicional no estado, precisará marchar unida e escolher entre uma das candidaturas: se será Priscila Costa, melhor posicionada, embora tecnicamente empatada com o deputado Alcides Fernandes, também do PL – ela está com 22% e ele com 20%. Coincidentemente, Costa tem 22%, o número de seu partido.

A boa colocação fez a vereadora de Fortaleza comemorar em suas redes, postando não apenas os números da pesquisa mas, também, uma foto com Flávio Bolsonaro:

Na legenda, Priscila mandou um recado: “melhor resultado do PL em pesquisas eleitorais, e é só o começo“.

Também falou de “tentativa de silenciamento” de seu nome para o Senado. Ora, por certo, tal tentativa vem da própria oposição; mais ainda: vem de sua própria sigla, secção Ceará.

Vejamos, de perto, pois, a disputa no PL.

Antes de tudo, registre-se a boa tática comunicacional dos dois candidatos do PL: seus nomes já são conhecidos do eleitorado, sobretudo, por óbvio, dos evangélicos.

Infelizmente, nos números do Senado não foram publicizados o recorte por religião e outros segmentos.

Alcides, nos últimos dias, tentou mostrar-se como o candidato consolidado do PL ao Senado, agradecendo diretamente “ao amigo Flávio e ao PL pela confiança“, merecendo um “Deus te abençoe nessa missão, vamos vencer!” do deputado Carmelo Neto em comentário.

Priscila tem circulado pelo interior desde que assumiu a vice-presidência nacional do PL Mulher, o que lhe conferiu visibilidade que, de outro modo, não teria. Ceará a fora, tem circulado bastante por templos evangélicos. Sobremaneira, é uma excelente comunicadora, mostrando-se fiel aos valores defendidos e, sem dúvida alguma, pode-se dizer que é uma novidade na política: além de ser mulher, o espaço que ocupa no Legislativo não foi herdado de ninguém – embora seu avô tenha sido deputado, o foi décadas antes de ela mesma entrar na política, bem diferente de seu opositor na disputa pela indicação do PL, que ocupa, por assim dizer, uma cadeira tida como pertencente ao seu filho, naquela dança das cadeiras que nos acostumamos a ver nos Parlamentos do país.

Há duas disputas em curso para Priscila:

1-  com Alcides. A vereadora possui inúmeras credenciais para sair-se vencedora: mulher, evangélica, parlamentar produtiva, apoio nacional de Michelle Bolsonaro, campeã de votos ao longo das eleições, combativa, ideológica. Mas tem dois problemas: não possui relação familiar com aquele que controla o PL do Ceará (inclusive, presidindo-o) e que se posta como a maior liderança do bolsonarismo no estado – não é, para falar em boa cearensês, “do sangue dele“;

2- com o campo bolsonarista local. Priscila não está entre os entusiastas da candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao governo – fiel à Michelle, estava colada na ex-primeira dama no evento de lançamento da pré-candidatura de Eduardo Girão (NOVO) no ano passado; não compareceu aos “cafés da oposição” em que Ciro ou Roberto estavam e não saiu nas diversas fotos que circularam desde o ano passado. Nem declarou voto em Ciro, como já o fizeram André, Silvana, Jaziel, Wagner, Reginauro e tantos outros políticos do seu espectro ideológico.

Priscila é uma das apostas da “bancada da Michelle” – o grupo de mulheres conservadoras que a ex-primeira dama quer ver eleitas para a Câmara e para o Senado, sob sua influência direta. Priscila, inclusive, repostou matéria da Folha de São Paulo dando conta desse intuito. Registre-se que a primeira queda de braço, nesse sentido, foi vencida por Michelle em SC, onde Carol de Toni será candidata ao Senado.

 

Na semana passada, esteve entre as parlamentares que protestaram contra a vitória de Erika Hilton (PSOL-SP) para a presidência da Comissão dos Direitos da Mulher.

O que Priscila não pode esquecer é uma lição da sociologia política: o político tira sua força de um grupo, que investe nele o seu crédito, sua crença, sua aposta.

O bolsonarismo local segue irrestritamente as ordens do líder André (embora parte dessa base pense em marchar com Girão).

Ano passado, a deputada Silvana lembrou que Michelle “não vota aqui“, que é “preciso escutar quem tem voto aqui“, e estes, ao que parece, querem o outro candidato ao Senado – o “pai”, para manter a tradição na política.

Outra coisa que Priscila não pode esquecer, olhando os dados da mesma pesquisa que comemorou, é que Jair Bolsonaro, de quem se posta como fiel escudeira, é razão para “não votar de jeito nenhum em candidato apoiado por ele” de 63% dos entrevistados, e a disputa ao Senado é majoritária, onde se pode muito bem utilizar, com êxito, a campanha negativa contra a “candidata de Bolsonaro” – e esse dado também pode atrapalhar os planos de Alcides, caso seja ele o escolhido, mas não os dela se, em sendo preterida pelo partido, se lançar, mais uma vez, à Câmara.

A seu favor, Priscila tem Michelle e seu próprio histórico de votos na capital (nas eleições de 2016, 2020 e 2024)  e no interior (2018 e 2022).

Penso que deve haver uma divisão das duas vagas ao Senado: uma será do governo e outra da oposição.

Daí a batalha, lá e cá – entre governistas e oposicionistas.

Sendo Cid candidato, as coisas se complicam, pois sobrará apenas uma vaga para a disputa (óbvio, eleição é eleição).

O que Priscila deve fazer, penso eu, é dizer, urgentemente, em quem votará para o governo.

Não pode ela esquecer que Ciro Gomes já tem 56% das intenções de votos entre evangélicos. Ciro Gomes, aquele que, há 6 anos era apresentado como “inimigo de padres e pastores“; agora, é a “aposta” dos irmãos para “derrotar o PT“.

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