Queremos que a nossa elite pense como Amarílio Macêdo

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Por Fábio Campos

O empresário Amarílio Macêdo situa-se naquele pequeníssimo rol de cearenses (talvez, conte-se nos dedos de uma mão) que é uma reveladora unanimidade: um grande governador que jamais tivemos.

Sim, tudo o que aconteceu de bom no Ceará (e não foi pouco) com a mobilização do CIC, na primeira metade da década de 1980, o tinha como uma das âncoras.

Em 1986, a vitória de Tasso Jereissati para o Governo, promovendo uma histórica guinada na política e na forma de governar, foi o coroamento daquele movimento ímpar nascido no seio de uma elite econômica. Coisa única no Brasil, ainda mais originada em um estado pobre do País.

Ainda na ditadura, os jovens empresários, então reunidos no Centro Industrial do Ceará, promoveram um surpreendente debate político que trouxe a Fortaleza diversos protagonistas da economia e da política brasileira, incluindo os que antagonizavam com a ditadura militar. Gente como Leonel Brizola, por exemplo.

Governo das Mudanças, intitulou-se assim o início da era Tasso. Amarílio era o agente dessa mudança que falava em algo diferente. Queria colocar povo e movimento social como componentes do processo que então dava os primeiros passos. Eis que o pragmatismo no exercício do poder pôs o dedo nessa possibilidade de respiro.

Mobilização popular em torno do projeto das mudanças? Não, não! Além de trabalhoso, isso poderia atrapalhar, não é? Como é peculiar aos processos políticos, Amarílio acabou como vítima da correlação de forças que se formou em torno do primeiro Governo Tasso. O Governo das mudanças perdia assim muito de sua radicalidade ao ponto de, na sequência, receber o banal batismo de “Cambeba”.

Poucos sabem, mas Amarílio, que não negava projetos políticos pessoais, foi pioneiro do PSDB. Sim, foi cofundador do partido no Brasil junto com Mário Covas, José Serra, FHC e outros. Algum tempo depois, no ramerrame do delicado processo político de 1989, Tasso e seu grupo ficaram com o partido no Ceará.

O tempo passou. Aos poucos, o empresário foi deixando de lado intenções políticas e se dedicando mais e mais aos negócios. Porém, em raros posicionamentos públicos ou nas interlocuções pessoais, o mesmo Amarílio que foi cabeça do mais importante movimento político do Ceará sempre dava seus sinais. Hoje, seu brado se fez sonoro.

A Carta pela Democracia, documento que já tem seu lugar na História, foi lançada na semana passada sustentado por um punhado de assinaturas. Hoje, caminha para receber outras milhões. Entre os assinantes de primeira hora, estava lá Amarílio, o único empresário cearense a assiná-lo naquele momento.

O governo federal fez uma pressão intensa para que os pesos pesados da economia retirassem a assinatura. Sem sucesso. Além de manter seu autógrafo, Amarílio foi muito além ao publicar um eloquente artigo no Estadão, o jornal mais identificado com a elite econômica paulista. A frase que inicia o texto já diz muito: “Nossas elites menosprezam a cara da revolta”.

Para quem o conhece, o conteúdo memorável do artigo (veja a reprodução abaixo), não é uma surpresa. Trata-se de uma dura, eloquente e certeira crítica à trajetória e ao comportamento da elite brasileira. Sim, a democracia não é um fundamento que interessa só às esquerdas. A luta contra as desigualdades e pela civilização não são patrimônios de alguns que se arvoram a tal. Ainda bem.

Ao assinar a Carta pela Democracia em seu nascedouro e, em paralelo, assinar o referido artigo, Amarílio Macêdo faz jus não somente à sua caminhada, mas também a um grupo empresarial que é orgulho dos cearenses.

Recomendo a leitura e recomendo a todos os candidatos ao Governo do Ceará que cuidem de ter o empresário como interlocutor. Eles e o Ceará só têm a ganhar. Segue.

Estamos esperando o quê?

Há muitas pessoas que detêm o poder político e o econômico no nosso país que não assumem sua responsabilidade como elite.

Amarílio Macêdo, O Estado de S.Paulo, 29 de julho de 2022

Nossas elites menosprezam a cara da revolta. Aparentam não ter olhos para ver os sinais de agravamento da miséria e do esgarçamento do tecido social e político do País. Será que o Brasil precisa aumentar mais a desigualdade, deteriorar ainda mais as condições ambientais e ameaçar mais e mais a democracia para que a insatisfação se torne visível?

Parte significativa da nossa elite, em sua insensibilidade e ignorância, não vê a potencialidade destruidora de uma força social descontrolada, desorganizada e crescente, dos que já não têm mais nada a perder e que poderão passar a agir no tudo ou nada. Pessoas invisibilizadas, discriminadas e desesperançadas são capazes de explodir como uma horda desenfreada, pronta para ultrapassar todo tipo de barreira e quaisquer limites.

A contagem regressiva se acelera com o aprofundamento do fosso que separa brasileiros pela cor da pele, pela região, condição social, orientação sexual, opção religiosa, por preferências políticas e tendências ideológicas. Nessas clivagens segregacionistas, viver ou morrer tende a ser indiferente para os que têm a vida relegada a níveis sub-humanos; e os efeitos desse tipo de apatia são devastadores.

O mundo dito civilizado caminha para o mundo da barbárie. Sinais disso são que o nazifascismo está voltando, a guerra assombra o mundo mais uma vez, intensificam-se as crises migratórias, energéticas e alimentícias e a cultura do Velho-Oeste estadunidense se infiltra nas sociedades. No Brasil, a propagação do ódio, a discriminação dos contrários, o cultivo do medo, a disseminação de notícias falsas, a demonização dos meios de comunicação e a destruição de reputações esterilizam o livre debate de ideias, que é o único caminho para a construção de soluções compartilhadas e duradouras.

O nosso país está dividido em dois blocos preocupantemente assimétricos: um pequeno, dos que têm acesso; e um gigante, dos que não o têm. E a pior desigualdade é a impossibilidade de acesso, que resulta na carência de meios para a realização individual e coletiva e na desumanização do viver. A educação, que é condição indispensável para o viver bem e para a ascensão social, não produzirá seus efeitos benéficos enquanto a escola pública brasileira não atingir padrão semelhante ao das escolas privadas; com isso, as discrepâncias continuarão sufocando aqueles que não têm acesso.

Os brasileiros não precisam de esmola nem deveriam ser tratados como fracos, inferiores e incapazes, como historicamente tem sido. A fraqueza, a inferioridade e a incapacidade nascem dos preconceitos dos poucos que, ao longo da nossa história, vêm tendo acesso às benesses civilizatórias, e se acomodaram no falso conforto da indiferença. A gravidade dessa deformação é tão destruidora que pioramos continuamente as diferenças entre os privilegiados e os apartados.

A bem da verdade, há muitas pessoas que detêm os poderes político e econômico no nosso país que não assumem sua responsabilidade como elite. Fazem com que as coisas públicas sejam confundidas com coisas que não têm dono. Esse desrespeito com o que é comum está na base do bloqueio ao acesso dos que não têm o suficiente para morar, se locomover, se comunicar, comer, se divertir, cuidar da saúde, se vestir e se educar dignamente.

Diante deste cenário de desarranjos e de injustiças, e considerando as eleições presidenciais que se aproximam, é evidente que a governabilidade do País não estará inteiramente nas mãos nem do ex-presidente Lula nem do atual presidente Bolsonaro, os dois candidatos que lideram todas as pesquisas de preferências realizadas até agora.

Quem acredita que Lula vitorioso conseguirá governar adequadamente tendo os bolsonaristas desencadeando ações agressivas, instigadas pelo perdedor? Ou, ao contrário, quem acredita que, se Bolsonaro ganhar, a crise nacional, nos campos político, econômico e social, não se agravará ainda mais?

Quem desconsidera o fato de parte da população estar sendo estimulada a se armar e a reagir àquilo de que discorda? Quem acredita que centenas de milhares de pessoas fanatizadas e armadas poderão ser controladas em eventuais desatinos?

 

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