Réveillons inesquecíveis. Por Angela Barros Leal

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Digamos que eu tenha ouvido de alguém essa breve história: “Fui das primeiras pessoas a chegar ao local do velório, por ter sido logo avisada que a morte se dera. A viúva era uma estátua da descrença, bem penteada, bem maquiada, vestida em branco. Me diga que isso é verdade, me diga que é verdade, ela repetia a quem chegava – ela, que se preparava para o baile da passagem de ano, e poucas horas antes da festa de réveillon, encontrara o marido morto, na rede da varanda.

O mesmo espanto se refletia no rosto de quem entrava no salão do velório: os filhos, vindos das casas de praia, os amigos desviados da rota prevista para os clubes sociais, os colegas, quase todos vestidos em branco ou em amarelo, como se fossem membros de um mesmo culto.

Ele estava tão bem de saúde, ela explicava a cada um, tentando entender o incompreensível. O marido tinha deitado um pouquinho na rede, para descansar, pois iam virar a noite no clube, e agora… e agora… Mais tarde, ouvimos o estourar dos fogos à distância, para os lados da Beira-Mar, o céu certamente clareando em cores, as ondas de alegria coletiva pelo Ano Novo chegando enfraquecidas até nós, a irrealidade permeando esse inesquecível réveillon de lágrimas.”

Digamos que eu tenha ouvido essa segunda história: “Aeroporto de Vancouver, Canadá. De lá partiríamos para a longa viagem até Nova Déli, circundando o mundo pelo Pacífico. A neve caía do lado de fora quando descemos do taxi para pegar o voo da meia noite de um 31 de dezembro.

Do lado de dentro, não havia movimento nos guichês, nem filas de espera, e logo soubemos a razão: nosso voo partira ao meio dia. Um desses enganos fatais em viagens, fruto de injustificável desatenção e das peculiaridades com que são apresentadas datas e horas. Para nossa sorte, havia um outro voo, com o mesmo destino, saindo às duas da manhã do dia seguinte. Até lá, nenhum outro avião deixaria a pista.

Aguardamos sentados lado a lado, imersos em tristeza de órfãos. Todas as lojas fechadas. Todos os quiosques de venda às escuras. À frente, atrás, por toda a extensão do saguão de embarque, nenhum sinal de vida humana, exceto uma voz masculina desincorporada que, nem sei se no horário preciso, anunciou um irônico e inesquecível “Happy New Year!”

E vamos supor que eu tenha ouvido mais uma história: “Estávamos no Panamá. Por que Panamá, nos perguntavam antes da viagem, e nós respondíamos: por que não Panamá, se havia voo direto até lá, se queríamos visitar o afamado Canal, e se nos apeteciam os pratos panamenhos. Pois justamente neles encontrei a intranquilidade. Misturar, em uma mesma refeição tardia, carimañola e uma apetitosa porção de ropa vieja não foi decisão acertada.

No começo da noite de 31 de dezembro, o mal-estar se fez insuportável e foi preciso recorrer ao seguro saúde. Embora houvesse um hospital inteiro e perfeito diante do hotel, o convênio oferecia um único e distante ponto de atendimento. Dentro do táxi, a caminho da prometida assistência, as entranhas revirando em ondas intranquilas, parecia que atravessávamos todo o trecho desde o mar do Caribe ao Oceano Pacífico, tão infindável se fazia o trajeto.

Não chegávamos nunca. Três almas penadas, silenciosas, dentro de um carro viejo, cruzando a noite panamenha pelo que se assemelhava a uma eternidade de quilômetros, com escalas frequentes para devolver ao chão do Panamá o desassossego de meu estômago inquieto.

Nenhum outro veículo cruzava com o nosso. Nenhum emparelhava. Para trás as praias, os shoppings, os hotéis de luxo, os edifícios de ousado design. Aqui e ali, casas, casinhas, mata escura, o céu perfurado de estrelas do Panamá profundo, ausente dos roteiros turísticos. Desembarcamos diante do posto de saúde: nada mais que uma portinhola aberta em um strip mall, entre um conjunto de modestos pontos comerciais de beira de calçada, todos justificadamente fechados.

Era eu a única paciente. Não posso me queixar da atenção do jovem plantonista, esforçando-se em portunhol para entender meus males, nem da atendente dele, uma senhora de pele escura ocupada em tecer, com pontos largos, uma alegre manta multicor. Os minutos pingavam com o soro, desfazendo a dor e o mal-estar, e dessa forma inesquecível vi o calendário virar para o dia primeiro de janeiro.”

Por ter experimentado tudo isso é que recomendo: é sempre bom ter cuidado com o desejo de férias e festas inesquecíveis. Elas podem, sim, acontecer.

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