
Quando Cid Gomes afirma que a permanência de Camilo Santana no ministério é uma “sombra” sobre Elmano de Freitas, mas que sua saída o transformaria em “fantasma” (veja aqui), ele não faz uma metáfora casual. Ele descreve, com precisão política, um dilema clássico da sucessão em sistemas de liderança forte: o problema do padrinho excessivamente poderoso.
Veja a frase do senador Cid publicada em reportagem da Folha: “Se Camilo sair, isso é terrível para o Elmano. O Camilo, como foi um excelente governador, saiu muito bem avaliado; ele não deixa de ser uma sombra para o governador Elmano. Agora, se ele sai do ministério, isso deixa de ser uma sombra e passa a ser um fantasma“.
Na ciência política, a “sombra” representa a presença visível de uma liderança anterior que ainda exerce influência simbólica, eleitoral e decisória. Ela limita a autonomia do sucessor, mas ao mesmo tempo organiza o campo, sinaliza continuidade e reduz incertezas. A sombra é incômoda, mas estabilizadora. Já o “fantasma” é mais perigoso: é a liderança ausente formalmente, porém presente como possibilidade latente, como alternativa silenciosa, como reserva estratégica. O fantasma não governa — ameaça.
Cid aponta, portanto, para um risco específico: fora do ministério, Camilo deixa de ser apenas o fiador político de Elmano e passa a ser, inevitavelmente, o nome disponível. Ainda que negue, ainda que declare apoio, sua simples condição de “ex-governador bem avaliado” reintroduz no sistema a dúvida central das disputas políticas: e se? Pois é… e se?
Esse “e se” é corrosivo. Ele afeta a disciplina da base, alimenta expectativas cruzadas, estimula apostas duplas e reduz a autoridade do titular. Governadores em reeleição dependem menos de padrinhos e mais de exclusividade simbólica. Elmano precisa ser visto como o candidato natural, não como o candidato provisório. O fantasma impede isso.
A fala de Cid também revela algo mais profundo: transparece para o mercado político que o senador que Camilo é bom como aliado, mas não como opção de substituição. Compreendem? Nessa hora, é bom se lembrar da recente frase do irmão mais novo, Ivo: “A maior preocupação do Camilo é destruir o Cid”. E se essa percepção for a mesma de Cid?
Bom, voltemos à questão central: Ao dizer que Camilo poderia virar fantasma se deixar o Ministério e voltar com malas e bagagens para o Ceará, Cid estabelece que o sistema político cearense ainda não internalizou plenamente Elmano como centro de gravidade do poder. Ou seja, a liderança não se consolidou a ponto de tornar irrelevante a hipótese Camilo.
Há ainda um segundo nível, mais sutil. Ao formular publicamente essa leitura, Cid ancora a interpretação do jogo. Ele sinaliza à elite política — prefeitos, deputados, operadores — que qualquer movimento de Camilo fora do governo federal será lido como ambiguidade estratégica, ainda que não seja. Portanto, trata-se e, digamos, uma forma de contenção preventiva: enquadrar o significado antes que os fatos o façam.
Cid não fala de sentimentos. Ele fala de arquitetura de poder. E, nesse desenho, fantasmas são sempre mais perigosos do que sombras. De resto, é mais um episódio da complexa equação política do Ceará.






