DA PRIMEIRA PESSOA ESCUTO: Tem gente que me chama de mulher forte. De corajosa. De uma pessoa que não tem medo de nada. Pois eu tenho medo. E muito. Meu filho doente, pesando 50 quilos em 1,70m. Sei não. A minha coragem para cuidar dele é Deus quem me dá.
DA SEGUNDA PESSOA: Fui candidato a vereador na Capital nos anos de chumbo. Na última eleição do regime militar. Tinha 20 e poucos anos. Meu principal opositor era meu conterrâneo, e todo mundo dava a vitória para ele. No fim das contas, ele acabou me dando a eleição.
E DA TERCEIRA: Criei uma biblioteca do nada, aproveitando um depósito vizinho à casa dos donos de um sítio. Eu e meu amigo, um dos donos do dito sítio. Ele morreu. Agora, os irmãos dele não querem mais saber de gente entrando no terreno para usar a biblioteca.
PRIMEIRA: Ele teve CA. No intestino. Anda com uma bolsinha amarrada na barriga. Quase não sai de casa, com vergonha. Também por fraqueza, porque não quer comer nada. Eu faço o maior esforço para comprar as coisas que ele gostava e ele não come. Uma tristeza.
SEGUNDA: Eu tinha chegado em casa meia noite, cansado de ir de casa em casa, visitando eleitor. O telefone tocou. Telefone fixo, naquele tempo. Atendi e era uma pessoa de uma casa que eu tinha visitado, e que tinha prometido o voto ao meu concorrente.
TERCEIRA: Na verdade, acho que os irmãos do meu falecido amigo pensam que eu estou ganhando rios de dinheiro com a biblioteca. A cunhada dele é uma que pensa isso. Só de falar me dá até vontade de rir. Ganhar dinheiro com biblioteca! Ainda mais no interior, só em sonho!
PRIMEIRA: Eu não deixo de sair. Vou para onde me convidarem, até para me distrair com alguma coisa. Sendo convite da Igreja, melhor ainda. De vez em quando, vamos visitar igrejas de outros estados. Aí eu chamo a minha irmã, para ficar dando assistência ao meu filho.
SEGUNDA: O filho do homem que me ligou tinha acabado de ser preso. Bebeu além da conta, desacatou um policial e levaram ele para a delegacia. O pai me disse que tinha falado com o outro candidato, e ele respondeu que ia resolver no dia seguinte. Só que o pai queria era agora.
TERCEIRA: A duras penas consegui um apoio financeiro da Prefeitura do município. Era pouco, mas ia ajudar pra comprar livros novos, pra recuperar os mais antigos, pra divulgar a biblioteca. E a tal cunhada veio me perguntar quanto é que ela ia ganhar. Daquele pouquinho!
PRIMEIRA: Dessa vez, fomos para Vitória, no Espírito Santo. Bastou o nome Espírito Santo para me dar força! Oramos muito pela saúde do meu filho. Deus me fortaleceu. Me deu ânimo para continuar batalhando. Eu voltei mais disposta a fazer de tudo para ele ficar curado.
SEGUNDA: Só fiz me enxugar e botei a roupa para sair de novo. Eu tinha um jipe, um jipão velho, do tempo da guerra, e fui direto na Delegacia. Ficava no Centro da cidade. Por sorte, o Delegado de plantão tinha sido meu colega de colégio.
TERCEIRA: Eu quase ri na cara dela. Não ri porque o irmão dela era perigoso. Andava armado. No interior, todo mundo é parente de todo mundo. E a arma, quando não é de fogo é peixeira. Assim que entrei na cidade o irmão dela me abordou.
PRIMEIRA: O médico dele falou que uma nova operação ia melhorar a situação do meu filho. Era arriscada, mas melhorava. Eu fechei os olhos, respirei fundo, pedi uma orientação ao Senhor. E disse ao doutor: pode fazer.
SEUNDA: Meu amigo Delegado veio lá de dentro, me deu um abraço. Contei a história toda, da minha candidatura e tudo mais. Tinha que prender mesmo, ele me disse. Autoridade merece respeito. Era de lei. Mas como era para um amigo, a gente podia dar um jeitinho.
TERCEIRA: O cara chegou para mim e foi logo perguntando se eu ia gostar de levar um tiro de escopeta na cara. Eu nem pisquei. Fiquei calado, olhando no olho dele. Aqui entre nós, eu também andava armado. Nunca se sabe, se aparece uma cobra, um bicho do mato…
PRIMEIRA: Meu filho aceitou a cirurgia numa boa. Fizeram uma semana depois, conseguiram tirar uma coisa lá de dentro que estava prejudicando, botaram outra coisa, e ele está se recuperando muito bem. Talvez até tire a bolsinha! Deus é muito bom.
SEGUNDA: Ele mandou um policial ir lá dentro e trouxe o rapaz. Deu uma bela lição de moral nele. Disse que na próxima vez ele ficava preso, e que só estava saindo por minha causa. Já eram umas 2h da manhã. Seguimos no jipão para o bairro deles lá.
TERCEIRA: Sabe aqueles filmes de cowboy, de duelo? Pois foi igual. Só faltou a musiquinha. Acabou que ele deu as costas e entrou num boteco. Eu aproveitei e vim embora. O dinheiro está na minha conta. Mas por lá eu não volto tão cedo. Não me dou bem com escopeta…
SEGUNDA: Sucesso maior do mundo! 2h30 da manhã, a lua brilhando, nós dois em cima do jipão, a multidão de conterrâneos na calçada, chorando, aplaudindo! Os pais dele chamaram a vizinhança toda. Como eu falei, quem me deu a vitória na eleição foi o meu concorrente!

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







