Trump, a ciência, a universidade e o senso crítico; Por Paulo Elpídio

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As universidades precisam viver em uma atmosfera de autonomia e de estímulos vigorosos de experimentação, ensaio e renovação. Não é por simples acidente que as universidades se constituem em comunidades de mestres e discípulos, Anisio Teixeira – “A universidade e a liberdade humana”, RBEP, vol. 2 , num. 51 , 1953


A universidade, das sua origens
mais remotas no Ocidente, em Bolonha, Paris ou em Cambridge — e em Harvard, surgiram, organizaram-se e ganharam espaço como “Sede Sapientiae, em torno da cátedra, dos mestres e dos seus discípulos.

Das confissões de fé, em sua subordinação à Igreja, a universidade desfez-se, na medida do avanços da ciências e dos saberes produzidos, desse jugo atemporal, mas não se livrou dos controles e da autoridade do Estado. Como se já não fosse demais, com a universidade napoleônica, transformou-se em ”Grandes Écoles” para atendimento das necessidades do Estado e dos interesses de mercado.

Mais recentemente, com a explosão das nacionalidades e do crescimento dos poderes do Estado, com a sua exposição à política dos homens e das mulheres, dobrou-se às ideologias e deixou-se controlar pelas formas mais severas de totalitarismo. Era como, ao livrar-se dos domínios da Fé, houvesse caído na armadilha das infinitas conexões do Estado.

Tudo assim se fez sob as luzes das ideias iluministas, da Liberdade e da igualdade entre os homens. Por fim, foram as questões mínimas e máximas de gênero e as porfias identitárias a trazerem de volta os traços fundacionais da Civilização e postos em questão. Como se fora o começo de uma reescrito do passado.

A “autonomia universitária” atributo regenerativo deste Ente civilizacional, reconhecido como direito e necessidade associados à sua índole e à sua missão, foi, nestes dois milênios, o ponto crítico de resistência entre o governo da universidade e o governo do Estado tentacular, à sobrevivência sob o absolutismo, aos sistemas totalitários socialistas e às múltiplas “democracias” que ameaçam com a iminente ruptura das fundações do Ocidente.

O risco representado pela esquerda e pela direita (sob formas variadas de autocracias, fascismo, nazismo, comunismo, democracia social e alternativas suspeitas) transparece, no que tange à universidade, na redução da sua liberdade para pensar, estudar, produzir conhecimento e compartilhar as suas descobertas com a sociedade, inclusive com o governo. E para formular o seu pensamento crítico.

Bologna, Paris, Cambridge (UK e USA) surgiram à sombra dos monastérios, das “scriptoria”, porém, foi de arrivistas, alunos e mestres vindos de lugares distantes que encheram as suas classes. A “internacionalização” condição estreitamente associada à universidade, tem muito a ver com a expressão que a designa — “universidade”. Foi com estrangeiros que a ciência foi construída e os muitos saberes que iluminaram a consciência e a inteligência humanas.

O “Quartier Latin” compõe com o boulevard Saint-Germain-des-près em Paris, a denominação e os ares intelectuais de erudição que hoje ostentam, pelos monastérios, pousadas e residências nas quais estudantes de toda a Europa se recolhiam. O Trivium e o Quadrivium operaram transformações profundas na concepção e no conceito de “Universidade”, com “U” maiúsculo…

Como, assim, dever-se-ia conceber a universidade sem estudantes ou lentes e pesquisadores — estrangeiros? Como e por que reservar ao Estado a competência e precedência para exercer o controle sobre as necessidades e as demandas da universidade? E sobre a ciência, sobre o saber e o senso crítico da Alma Mater?

Não se há de esquecer o assalto inopinado de uma esmagadora onda “woke” e “queer” à universidade em todo o Ocidente, ordenadamente disposta como se fora legiões a impor regras e costumes, disciplinadamente sob a égide de formulações de uma revolução cultural que encontrou os objetivos a combater, porém não percebeu o quanto eles trazem de discriminação, de autoritarismo, discricionarismo e arbitrio.

O tratamento dispensado à Universidade de Harvard, com cortes de verbas, redução de bolsas, censura de livros e dispensa de estudantes estrangeiros, não produzirá efeitos sobre ideias que alimentam-se justamente do autoritarismo das ideologias salvacionistas, baseadas em impulsos primitivos com tinturas de revelação, aceitas por iluminados e ignorantes militantes disseminados pelos “campi” universitários. São lembranças que trazem vivas aquelas imagens trágicas da Opernpkatz, de Berlim, do Auto de Fé da queima de livros.

 

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