Ucrânia: o novo Pivot do século XXI. Por Igor Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Se no século XX a Polônia foi considerada um Estado pivotal na história mundial, seja pela sua invasão por parte da Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial ou por causa da Revolução Trabalhista. Hoje a nação europeia que se apresenta como pivotal, e que seu destino está intimamente ligado às relações do Ocidente com o Oriente é a Ucrânia.

A inteligência dos EUA descobriu que o Kremlin está planejando uma ofensiva em várias frentes já no início do próximo ano, envolvendo até 175.000 soldados de acordo com autoridades americanas e um documento de inteligência obtido pelo jornal The Washington Post é o sinal mais significativo de uma possível invasão após a anexação da região da Crimeia.

Tanto a Rússia quanto a Ucrânia reivindicam sua herança da Antiga Rus, um governo que no século X uniu várias tribos e clãs de diferentes etnias sob a Igreja Bizantina.  De acordo com as crônicas da Rússia antiga, Kiev, a moderna capital da Ucrânia foi proclamada a ‘mãe das cidades Rus’ por ter sido a capital do poderoso Estado medieval de Rus, um predecessor das nações russas e ucranianas de hoje. A discussão sobre até que ponto russos e ucranianos compartilham uma origem comum pode gerar discussões acaloradas. O Império Russo considerava os ucranianos etnicamente russos e se referia a eles como “Pequenos Russos”, e este é provavelmente o início de todos os problemas e a base para conquistas e disputas na região.

A Ucrânia há muito é vista como um parceiro político importante, porém complicado, da União Europeia. De acordo com analistas, isso se deve a fatores como a falta de vontade da UE (União Europeia) em se expandir para o espaço pós-soviético, o fraco desempenho da economia ucraniana, a falta de democracia (durante a década de 1990) e a instabilidade interna. Além disso, alguns especialistas percebem a importância do fator russo nas relações UE-Ucrânia.

O desejo da Ucrânia de aderir à União Europeia remonta de 1993, quando o governo declarou que a integração na UE é o principal objetivo da política externa. Na realidade, pouco foi feito desde que Kiev teve que levar em consideração a Rússia, que continuou sendo sua principal parceira comercial e fornecedora de gás natural e energia fóssil. A Rússia odeia essa ideia por dois motivos: a primeira é que uma Ucrânia dentro da UE significa forças alemãs, britânicas, americanas e da OTAN em suas fronteiras; a segunda é que a influência da Rússia na Ucrânia seria consideravelmente diminuída.

O diálogo político entre a UE e a Ucrânia teve início em 1994, quando foi assinado o Acordo de Parceria e Cooperação (APC). Esse documento se concentrou em questões econômicas e sociais, bem como na necessidade de realizar reformas na administração pública e garantir a liberdade de imprensa e os direitos civis. Nas negociações mais próximas, Putin exige que os Estados Unidos e seus aliados forneçam garantias por escrito excluindo qualquer expansão da OTAN para incluir a Ucrânia e a Geórgia e limitando a atividade militar perto das fronteiras da Rússia, principalmente dentro e ao redor da Ucrânia.

As exigências por um novo pacto de segurança europeu vieram depois que Putin passou a afirmar por meses que as atividades militares dos EUA e aliados na Ucrânia e perto das fronteiras da Rússia estão cruzando a linha vermelha para o Kremlin.

Putin há muito vem protestando contra a expansão da OTAN nos antigos Estados do Pacto de Varsóvia como uma usurpação desrespeitosa de Moscou. Ele afirmou que um acordo concreto deve “descartar qualquer expansão adicional da OTAN para o leste e a implantação de sistemas de armas que representam uma ameaça para nós nas proximidades do território da Rússia”. 

Se essa movimentação das tropas russas é apenas um blefe ou estamos a assistir uma possível invasão é algo que apenas a diplomacia e a geopolítica poderão explicar, entretanto a Ucrânia de fato já se tornou o Estado pivotal na relação da Rússia com o Ocidente. Se nos depararmos com uma invasão da Ucrânia, já sabemos que a OTAN deverá reagir conjuntamente tanto com sanções quanto com ações militares. O questionamento é: onde estará a China neste conflito dado à sua maior proximidade com os russos, e como esse desdobramento afetará as relações com o Japão? A complexidade de relações de recursos naturais, rotas comerciais, ameaças democráticas e expansões territoriais são tão expressivas que não se sabe quais as consequências reais de uma invasão dessa monta. 

De fato, estamos o mais próximo de uma nova Guerra Fria ou de um conflito intercontinental, algo que seria considerado impensável devido a todas as ramificações e interligações entre as economias, principalmente a Russa. Contudo, é fato que a exclusão da Rússia dos debates internacionais é algo que vem agravando ainda mais a instabilidade global.

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