
O bonde elétrico, a que chamam tram, passava ao lado de um muro alto, de tijolos avermelhados, uma muralha que se estendia por bem mais de um quarteirão, o que me parecia algo estranho em uma cidade tão aberta. As estreitas casinhas antigas, o perfil das fachadas em desenho escalonado, qual fossem degraus para gigantes, postavam-se todas na mão direita da rua, onde quase ninguém caminhava. Fazia-se silêncio no bonde. Semanas depois, soube que o muro limitava a área dos fundos do Jardim Zoológico de Antuérpia.
A entrada do Zoológico eu conhecia desde quando chegamos, por ser ao lado do prédio da Estação Central de trem, um edifício de excepcional beleza. Mas demorei a relacionar a fachada principal do Zoo, ostentando portões de ferro trabalhado, um mosaico dourado como se feito para uma arena romana, mostrando o embate feroz entre o tigre e a serpente, um pelicano de bronze pousado no topo da estrutura, o garoto com ar de nobreza montado em um dromedário, todos esverdeado pelo tempo – demorei a relacionar a imagem da fachada com o muro vermelho, pontuado de portas que, em um ano inteiro, jamais cheguei a ver abertas.
Deveria ter sido mais atenta, era o que eu pensava. Semanas antes, quando no silêncio do bonde se imiscuía o cheiro de estrume fresco, de dejetos de animais de grande porte, um cheiro inusitado que invadia as janelinhas semifechadas, eu devaneava, levada de volta à vacaria do meu avô, às casas de fazenda de parentes. E seguia até meu ponto de parada sem maiores indagações, como se fosse natural que certos trechos de Antuérpia cheirassem assim.
Mas depois, quando descobri o que era, e qual a função do muro vermelho, foi como se meus sentidos se aguçassem. Não tinha mais como não escutar o rugido dos felinos, o grito das aves, o som metálico das grades forçadas por chimpanzés, a convulsão das águas nos lagos feitos à mão, de onde se atirariam cobras e crocodilos decididos a liderar rebeliões, motins movidos a dentes, venenos, garras e bicos.
Deviam os animais estranhar ou temer o ruído dos cabos elétricos, o rangido do tram arrastando-se nos trilhos, equilibrando-se nas curvas, eu pensava. Certamente deviam repelir as buzinas, repudiar as partidas e chegadas dos trens, o movimento de meio milhão de pessoas pulsando em volta. Não era para a prisão que haviam nascido as zebras de uniforme listrado, nem os pinguins, mais deslocados do que eu naquela cidade estranha.
Por algum motivo o Zoológico me incomodava. Passaria a incomodar mais ainda quando me foi dado a conhecer a impiedosa figura do Rei Leopoldo II, com suas longas barbas falsamente paternais, um desses perversos inquilinos do Criador. De certa forma, me parecia que a revolta dos animais, a partir de memórias do século XIX inseridas nas hélices de seu DNA, era contra o Rei.
Era contra Leopoldo II que bramiam, rugiam, urravam e sibilavam os hóspedes forçados de seu majestoso Jardim. Clamavam pela liberdade perdida, pelo massacre de 80 mil elefantes, sacrificados pelo valor de suas presas, pelo destino dos milhões de humanos escravizados, mutilados e mortos no território que, entre 1885 e 1908, se tornara propriedade privada do Rei, na região central da África ironicamente batizada de Estado Livre do Congo, o Congo Belga.
“O horror! O horror!”, a voz agonizante de Kurtz, personagem criado por Joseph Conrad no livro “Coração das Trevas”, ecoava no som que emitiam os animais. O som que agora eu sabia ser ouvido, em silêncio culpado, dentro do bonde em Antuérpia ao passar pelo muro vermelho.






