
A história recente da Venezuela expõe, de forma crua, um dilema que atravessa a América Latina: quando a política se afasta do povo e passa a existir para se perpetuar, a soberania popular vira retórica vazia. O colapso venezuelano não é fruto da falta de riqueza, mas da ausência de instituições capazes de transformá-la em bem-estar coletivo. O petróleo, que poderia ter sido alavanca de desenvolvimento, tornou-se instrumento de poder concentrado.
A relação entre Venezuela e Estados Unidos sempre foi guiada pelo pragmatismo. Ao longo do século XX, Washington manteve boas relações com Caracas enquanto o petróleo garantia estabilidade energética. A natureza democrática dos governos raramente foi determinante. Durante décadas, a Venezuela foi vista como parceira confiável do Ocidente, especialmente no período democrático iniciado em 1958. Esse modelo, no entanto, começou a ruir sob o peso da corrupção, da desigualdade e de crises econômicas recorrentes.
Foi nesse ambiente que Hugo Chávez ascendeu ao poder em 1999. Seu projeto rompeu com o alinhamento histórico aos Estados Unidos, adotou um discurso antiamericano e apostou na estatização e no uso político do petróleo. O problema não foi apenas ideológico, mas institucional. Ao concentrar poder, enfraquecer contrapesos e subordinar a economia ao Estado, o chavismo corroeu as bases da democracia. Com Nicolás Maduro, esse processo se aprofundou: repressão, eleições contestadas, isolamento internacional e uma crise humanitária que empurrou milhões de venezuelanos para fora do país.
Diante desse quadro, os Estados Unidos optaram por sanções, pressão diplomática e apoio à oposição democrática. Uma intervenção militar direta, como a ocorrida no Panamá em 1989, parece improvável no cenário atual. O mundo mudou, os custos desse tipo de ação ficaram evidentes, e a presença de atores como Rússia e China na Venezuela eleva os riscos de qualquer aventura unilateral. Ainda assim, o paralelo com o Panamá é instrutivo.
No início do século XX, os EUA apoiaram a separação do Panamá da Colômbia para viabilizar o Canal do Panamá. Controlaram a zona do canal por quase um século, investiram em infraestrutura, saúde e administração pública, e intervieram quando um regime hostil rompeu acordos estratégicos. Houve interesse financeiro? Sem dúvida. Mas o resultado foi a construção de instituições e de um país funcional, democrático e integrado à economia global. Hoje, o Panamá colhe os frutos dessa trajetória.
A Venezuela é mais complexa: maior, mais polarizada, com oposição fragmentada e inserida em um mundo multipolar. Ainda assim, a lição é clara. Riqueza sem instituições não gera liberdade. O petróleo venezuelano, administrado como ferramenta de poder, nunca chegou ao povo na forma de serviços, oportunidades ou futuro. Chegou como dependência, escassez e repressão.
O pós-Maduro apresenta caminhos distintos. O melhor deles é uma transição negociada, com eleições supervisionadas, liberação de presos políticos e reintegração gradual ao sistema internacional. Há, porém, riscos de ruptura caótica, endurecimento autoritário ou prolongamento do colapso. Em qualquer cenário, a reconstrução exigirá reformas profundas e apoio externo condicionado — não por altruísmo, mas por interesse mútuo em estabilidade regional.
Nas ruas da Venezuela, a escolha já foi feita. O êxodo, os protestos e a esperança persistente indicam que o povo prefere uma democracia imperfeita a uma ditadura que sequestrou a riqueza nacional. A política só faz sentido quando serve ao cidadão. Quando se transforma em um fim em si mesma, produz ruínas. A Venezuela é o exemplo extremo desse desvio — e um alerta para toda a região.







