A morte em mármore. Por Angela Barros Leal

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Alguns personagens da História cearense têm me intrigado ultimamente. Soam como almas penadas nos labirintos do meu sistema auditivo interno, uivam em meus lobos cerebrais, ecoam qual o vento desfolhando casuarinas nos cemitérios, pisam os caminhos entremeados de areia, pedregulho e sol que separam os túmulos. Um desses esquecidos personagens se chama Frederico Skinner, o primeiro marmorista de Fortaleza.

Das mãos dele nasceram muitas das obras escultóricas que vemos logo na entrada do Cemitério S.João Batista, no piso inaugural da necrópole. Estão lá as virgens desfalecidas, os anjinhos indicando os caminhos do além, as mulheres envoltas no movimento pétreo de seus véus, as mãos em prece, olhos voltados para o céu. Estão as capelinhas de mortos deslembrados, as cruzes rebuscadas, as mensagens eternas gravadas na pedra.

É possível que seu prenome original fosse Frederick, caso houvesse nascido na Escócia, como diz o pesquisador Henrique Sérgio de Araújo, o que não posso confirmar. Talvez fosse de fato um brasileiro Frederico, escolado pela graça divina nos dons de domar o material bruto desde antes de chegar ao Ceará, em julho de 1887, expressamente contratado para construir o pedestal de mármore da estátua em honra ao General Tibúrcio.

Era homem maduro, eu sei, pois em 1863 encontro seu nome assinando como primeiro secretário interino de uma associação de artistas a ser instalada no Recife, onde na mesma época se encontrava sob contrato para criar a nova calçada em pedra, em torno da praça de armas do Quartel do Corpo de Bombeiros, realizando serviço similar no Rio Grande do Norte. Circulava pelo Nordeste, e em Fortaleza conquistaria amigos e angariaria fama.

Os amigos cearenses, muitos deles, eram membros da maçonaria. É o que deduzo a partir da ilustração encabeçando seus anúncios, nos anos 1880, nos jornais Libertador e Cearense: as colunas jônicas estão lá, precedendo o altar ao qual se chega por um piso em preto e branco, estão lá o compasso, os utensílios do pedreiro, o olho triangular chorando estrelas de cinco pontas. Um aperto de mão e abriram-se as portas ao recém-chegado.

Sua decisão de permanecer aqui se faria aos poucos. Dava como endereço a rua da Misericórdia, 47, hoje rua Dr. João Moreira, oferecendo-se para trabalhos de arte mortuária em mármore (“Túmulos, capelas tumulares de família, pedras com inscrições, frentes de depósitos para ossos, urnas, pias para água benta e batismo,  lavatórios para consistórios de igrejas, pedras para altares, cruzes”), e para o viver doméstico ou de ganha-pão (“degraus, soleiras, peitoris, rodapés, consoles, lavatórios, mesas para café e bebidas, balcões para casas de bebidas, mesas e pias para cozinhas e aparadores”).

Era um profissional gregário. Aproveitando a experiência com a associação de artistas em Recife participaria aqui também da fundação da Sociedade Beneficente União Operária, em 1890, contribuindo para elaborar os Estatutos. O sucesso nos negócios permitira a expansão da oficina em 1891, mudando a entrada para a rua Senador Pompeu e passando por “imensa reforma”, conforme anuncia ao respeitável público.

Tinha, sim, alguns concorrentes, entre os quais Raimundo Tavares da Luz, e Charles, dito Carlos, Mesiano, este comercializando joias e obras de mármore de Carrara. Nenhum se igualava a Skinner no empenho em aperfeiçoar sua arte, impedido apenas por mazelas físicas que o deixavam preso ao leito.

Uma “elefantíase perniciosa”, doença transmitida por mosquitos, hoje conhecida como filariose, prendia o marmorista à cama durante semanas, recebendo o dedicado tratamento dos renomados doutores José Lino da Justa e Marinho de Andrade, que por vezes recomendavam inevitáveis viagens à Corte em busca de alívio para o intumescimento dos gânglios linfáticos, os calafrios, o inchaço dos membros.

 

“Partindo para o Rio de Janeiro levo gravado no coração a gratíssima lembrança do quanto me fizeram”, derramava-se ele em gratidão no Jornal do Ceará, transferindo à esposa a condução da oficina, missão repartida com a firma Almeida & Cia e com o Tenente-coronel Arlindo Gondim, proprietário da Empresa Ferro-Carril da Parangaba.

Recuperado, retomava a produção de memórias para os mortos ilustres que chegavam ao Cemitério ao dobrar dos sinos da Catedral, para os túmulos e portais das famílias de escol – diferentes do comum dos mortais até na hora da morte –, para inscrever na pedra, em alto e baixo relevo, os nomes e datas que pontuam uma vida, para fazer uso do mármore branco, o mármore de Carrara, proveniente da pedreira que descobrira no Acarape.

Consulto a administração do Cemitério São João Batista para descobrir se Frederico Skinner encontra-se sepultado lá, abrigado sob alguma lápide certamente de beleza única. Sei a data de seu falecimento, 7 de dezembro de 1909, graças a informação da filha dele no jornal pernambucano A Província. Nada é encontrado e suspiro com a notícia: sei que vai continuar me aparecendo, esse que viveu da arte da morte.

 

Angela Barros Leal é jornalista e escritora.

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