Suicídio coletivo

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho
rui.martinho@terra.com.br
A Argentina era um país próspero, mas escolheu o suicídio. Entrou numa crise para não mais sair. Nós éramos um dos países de maior crescimento no mundo, desde a proclamação da República até fins dos anos setenta do século XX. Os argentinos eram admirados, entre nós, como povo “politizado”, preparado para “defender seus direitos”, diziam nossos formadores de opinião. Nós, ao contrário, encontrávamos soluções de compromisso pelas quais não mudávamos as nossas estruturas e não avançávamos.
Acreditávamos na teoria da dependência, de Raúl Prebisch (1901 – 1986), com a qual os nossos intelectuais deslumbraram-se. O subdesenvolvimento, segundo o autor citado, era o lado do avesso do desenvolvimento, resultado da desigualdade nas relações internacionais. Nelas, um lado se desenvolvia e ou outro “desenvolvia” o subdesenvolvimento. Uma série histórica de preços comparados entre bens primários e bens industrializados, nas quais os primeiros perdiam valor ao longo do tempo, enquanto os últimos subiam de cotação, eram apresentados como “prova” da divisão internacional do trabalho como causa do subdesenvolvimento, atribuída ao “imperialismo”.
Não se considerava o valor agregado aos bens industrializados, nem o subdesenvolvimento como estado original, fato incompatível com a teoria segundo a qual o subdesenvolvimento é um “desenvolvimento” prejudicial a quem antes era desenvolvido. Acreditávamos no romantismo indigenista: os nossos índios eram heróis fortes e bem nutridos, “prova” do desenvolvimento como estado original e do subdesenvolvimento como o lado explorado. Não compreendemos que a felicidade simplória pode ser boa, mas não é desenvolvimento. Este é mais instrumentalizado para oferecer conforto e segurança.
Ao analisar as “trocas desiguais”, esquecemo-nos da alta de preço do trigo argentino, antes da queda, quando EUA, Austrália e Canadá aumentaram a oferta deste produto, segundo o cíclico de escassez, alta de preço, aumento de oferta e queda de preço. Esquecemo-nos dos países e dos nossos estados menos desenvolvidos e relativamente isolados, ao contrário daqueles integrados à economia internacional e mais desenvolvidos, ao invés de mais explorados.
Uma boa novela deve ter conspiração, vilão, vítima e salvador. A “politização” dos argentinos, responsável pela ruina daquele país, era um discurso dotado de todos estes atrativos. Era manipulação das massas através de partido e líderes hábeis para convencer o povo confirmando os seus desejos, a exemplo da existência de almoço sem conta, de um vilão responsável pelas suas frustrações. Era o discurso de quem não fala em produtividade, em poupar para investir ou em superação das dificuldades pela via esforço. Acreditamos em riqueza já existente, a espera de ser distribuída. Não fazemos reformas necessárias; não abandonamos ilusões. Deixamos de ser campeões de crescimento econômico e caímos na estagnação. Não aprendemos com os nossos erros. O fracasso das demagogias e utopias não nos serviram de lição. Trágico mimetismo dos erros argentinos.
 

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