Quem vem lá? I

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho
rui.martinho@terra.com.br
Durante a campanha presidencial de 1930, Getúlio Vargas percorreu algumas cidades, fazendo comícios. João Batista Luzardo (1892 – 1982), gaúcho de Uruguaiana, esperava a comitiva em algum lugar estratégico para, com grande vozeirão, saudar a comitiva. Começava gritando: quem vem lá?! Ele mesmo respondia, tecendo elogios ao candidato. Hoje temos uma campanha enigmática. Não sabemos ao certo quem serão os candidatos viáveis. Uns podem cair nas malhas da Lava Jato. Outros já caíram. Não sabemos quem são os novatos, apenas que estão surfando na onda da repulsa aos veteranos. Só nos resta avaliar possíveis nomes.
Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF, notabilizou-se pelo denodo com que dedicou-se ao processo do “Mensalão”, quando enfrentou a resistência de alguns dos seus pares e enfrentou as dores de quem corta na própria carne, condenando irmãos ideológicos do partido que ele sufragou. É um jurista de méritos, reconhecido internacionalmente. Acabam aí as informações que sabemos ao certo sobre ele. Comprou apartamento nos EUA. Isso é uma mácula? Não. Valeu-se de uma offshore, artifício tolerado pela lei. Isso é suspeito? Não sabemos se houve algo irregular ou antiético na transação. Agora se diz que ele bate na mulher. Mas só agora isso apareceu. A Suspeita deve recair é sobre essa afirmação. Sabemos que ele não tem experiência administrativa nem parlamentar. Propala-se que é uma pessoa intratável, do que parece ter dado mostras em algumas ocasiões.
Olhando para além da pessoa, perguntamos: quais são as suas propostas? Não sabemos nada além de que o possível candidato pretende ser um governante íntegro, sem a menor tolerância com a corrupção. Isso é o bastante para grande parte do eleitorado. Mas será que um homem sem habilidade política, sem partido e sem programa poderá promover o expurgo de corruptos, embora tenha de governar com um Congresso eleito pela via tradicional? Será que ele entende de Brasil? O homem que não soube enfrentar dez companheiros do STF, por mais difícil que isso seja, saberá enfrentar 513 deputados e 81 senadores, mais 27 governadores e 5.570 prefeitos e inúmeras outras fontes de pressão? Não sabemos, mas desconfiamos que a resposta seja um sonoro não. Talvez estejamos diante de um candidato com algumas semelhanças com os presidentes Jânio e Collor, no que concerne ao jeito de brigão e intolerante, tão sedutor para uma parte do eleitorado.
Democracia exige partidos bem constituídos. Não temos isso. Barbosa concorrerá para fortalecê-los? Até agora não fez nenhum gesto neste sentido. O Brasil precisa de reforma política, tributária, previdenciária e administrativa. O que ele pensa sobre tudo isso? Não sabemos. Um líder precisa ter equilíbrio. Barbosa não tem demonstrado tal coisa.
Quem vem lá? Uma incógnita. Um salto no escuro. Mas o que dizer dos demais? Depois eu conto.
 

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