Os tesouros do padre (1), por Angela Barros Leal

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Um dos desenhos obtidos por Tomás Pompeu Sobrinho para a Revista do Instituto do Ceara de 1956, reproduzindo algumas inscrições encontradas no Ceará conforme indicações do Padre Francisco Teles de Menezes.

A acreditar na data do nascimento dele, atribuída como sendo o distante ano de 1754, o Padre Francisco Teles de Menezes devia ser um vigoroso e bem-disposto quarentão quando iniciou a longa caminhada que faria entre as províncias do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Piauí e Pernambuco, sua terra natal.

O ano era 1799, o mesmo no qual o Império português decidira conceder autonomia à província do Ceará, desmembrando-a daquela de Pernambuco. Fato este que o padre talvez desconhecesse, pouco interessado que devia estar nas questões políticas, “o mais humilde vassalo” que era de Sua Alteza Real Príncipe Regente Dom João VI, ainda reinando soberano em Portugal.

Seu foco de trabalho, não se sabe se voluntário ou não, era buscar os sinais de riqueza acima e abaixo da terra que compunha a maior colônia portuguesa nos trópicos. E que riquezas havia ali. Começado em 1799 na “comarca do Ceará”, e concluído em 1806 “na freguesia de Pau dos Ferros, ribeira do Apodi”, Rio Grande do Norte, o livro no qual mais tarde registraria suas descobertas se lia como uma das histórias das 1001 noites.

O ouro estava em toda parte. À flor da terra. Ouro “para se tirar a machado, em lascas”, na serra do Pereiro. Ouro nas margens do rio Salgado, Lagoa Seca, no alto de Santa Clara; no riacho Salamanca, no Crato; no Morro Dourado, em Lavras. Nos Bastiões, no riacho do Cajueiro, no sítio Bom Jesus, “em todas as nascenças dos riachos pelas encostas da Serra Geral” – a Serra da Ibiapaba –, em tudo “há muito ouro, com abundância”.

Na serra do Boqueirão, nos Inhamuns, no serrote Pelado, “o ouro vem na raiz do capim”, afirmava o padre e não era à toa que o riacho Puyu se chamava rio de ouro. Na ladeira da mina, perto do Ipu, na fazenda Ipueiras ou na fazenda Cascavel, índios haviam encontrado “uma pedra de peso de mais de arroba [cerca de 15k] com a qual fizeram trempe e dizem que era de ouro”.

Nessas serras, onde à noite eram ouvidos tambores rufando debaixo da terra, e onde as pedras estrondavam na escuridão, compondo trilha sonora de fim de mundo, havia também muita prata, pedras de prata como a que havia sido encontrada perto do rio Pacoti, da qual se extraíra mais de uma libra do precioso mineral. Havia pedras vidrentas, pedras brancas dentro das quais se encontravam “canudos pretos reluzentes e quebradiços como vidro”, pedras prenhes de coisas desconhecidas, pedras “incógnitas, excessivamente pesadas” que ninguém sabia de que lado do céu teriam vindo.

Chumbo. Ferro. Amianto. Pedra hume. Caparrosa. Salitre. Enxofre. Gesso. Âmbar. Uma resina assemelhada a benjoim, perfumando as matas com seu cheiro de incenso. Minas vegetais e minerais a céu aberto a serviço de El-Rey, aguardando seus emissários para a recolha, tornada mais atraente ainda pela certeza de diamantes, topázios e rubis.

Sobre qual mundo de encantos caminhava o padre Francisco Teles de Menezes entre 1799 e 1806, um pontinho escuro percorrendo a paisagem do cerrado, da mata atlântica, do desértico semiárido nordestino, as chinelas de couro levantando poeira nos verões ardentes ou deixando rastros enlameados nos invernos, a barra da batina indigna de celebrações, disposto a acreditar em tudo que lhe era contado por indígenas, vaqueiros, pelo irmão de alguém que dissera ter ouvido de um amigo o lugar certo de tais riquezas, desaparecidas em um passe de mágica toda vez que se voltava a procurá-las.

Sem querer, findaria por documentar o que seria um imenso tesouro sobre a terra – e não abaixo dela – servindo não ao Imperador, à beira do desterro para o Brasil, mas a toda a Humanidade: as inscrições nas pedras feitas por primitivas culturas.

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