O peso do Passado. Por Angela Barros Leal

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Devia ser uma noite sem lua. Talvez até uma noite de chuva, o que ajudaria ainda mais na fuga. Não sei que horas se prepararam para escapar, nem quem se levantou primeiro, se Mariano ou Agostinho, embora ambos devam ter sido cautelosos na direção da saída. Sei que levaram apenas as redes em que dormiam e a roupa do corpo, em brim riscado americano, um dos tecidos “próprios para uniforme dos criados”, nos anúncios das lojas. Sei também que os dois estavam descalços: a Lei sabia que escravos de pés nus não iam muito longe.

Sobre Mariano, o anúncio de recompensa pago pela empresa da Viúva Salgado, Souza & Cia. diria ser “preto, barbado, estatura regular, 35 anos mais ou menos”. Pertencera antes a Pompílio Teles, informação que talvez auxiliasse em sua recaptura. Sobre Agostinho, propriedade de Dona Gertrudes de Macedo, que os leitores estivessem alertas a um jovem pardo, de cabelos crespos, sem barba e seco de corpo, com “uma quase imperceptível cicatriz no rosto”.

Sorte deles, Mariano e Agostinho, de não possuírem cicatrizes visíveis, o que retardaria reconhecimento e daria asas a seus calcanhares em fuga. Causada a propósito ou não, a marca de ferimentos no corpo e no rosto funcionava um pouco como a ferra no gado: um conveniente sinal de identificação.

Outros fugitivos seriam mais facilmente descobertos antes deles. Como João, 16 anos, de “corpo seco e cara descarnada, aleijado da mão direita cujos dedos, à exceção de um polegar, foram destruídos por um aperto de engenho”. Como Plácido, 22 anos, a quem também faltavam dois dedos na mão direita, sem causa apresentada. Como o jovem José, 17, com seu braço quebrado, ou Silvério, os dois pés com cicatrizes de queimadura. Tantos acidentes, inexplicados.

Talvez eu esteja sendo cruel nas descrições. E isso porque não mencionei Lázaro, reconhecível pelas “grandes cicatrizes no assento, provenientes de uma surra”, propriedade de Paurilo Bastos, que o comprara a Antonio Rufino. E nem citei o caso de Severino, alto, sobrancelhas bem fechadas, “um talho na face direita e marcas de açoite”, muito menos o de Conrado, “cabra fulo, cicatriz de um golpe de foice no beiço superior e outras cicatrizes de pontas de pau pelas costas”, e nem cheguei a Delmiro, com “uma grande brecha num lado da cabeça, que o cabelo cobre, e várias cicatrizes nas costas”.

Antônio fugira, mas trazia “alguns caroços de chumbo no peito e a cicatriz de uma cutilada no rosto.” Fugira também Virgílio ou Virgínio, vulgo Ventania, saltando do convés do vapor Guará antes do embarque para o Sul, a água salgada ardendo na cicatriz no braço, de um golpe que levara, e na pele lanhada de quem fora “bastante surrado”.

Não mexa nisso, sopra minha central de controle interno. Mas continuo, pois sei que estou bem aquém daqueles que quebraram os dentes da frente de Júlia, e que marcaram as costas dela com muitas cicatrizes de chicote, tenham sido eles Francisca de Araújo, responsável pelo anúncio ou, antes dela, os antigos donos Manoel Rabelo e Manoel da Rocha.

Sinto que devo alguma coisa – que devemos – a Paulo, Delmiro, Cândido, a Abraão, fugindo sem camisa, porém com o peso de uma argola de ferro atada ao tornozelo; a Antônio, da nação monjolo, com seus dentes limados e as marcas tribais nos ossos altos da face; a Venceslau, Eliseu, a Moisés, que não encontraria aqui a Terra Prometida, mas sim uma queimadura imensa, um mapa de dor assinalado a relevo em todo seu lado esquerdo. Sinto que temos, sim, uma dívida impagável para com todos esses nomes, sem sobrenomes, vivos somente nas páginas dos jornais desse nosso tão dócil Ceará.

 

Angela Barros Leal é escritora e jornalista. Escreve às sextas-feiras no Focus.

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