
Manifestações inquietantes se espalham pelo mundo. Não só além da fronteira meridional dos EUA ou em uma ou duas democracias ou ditaduras, mas em quase todo o mundo. Irã, França, Cuba, Venezuela, Reino Unido, EUA fervem. Constituintes são convocadas; multiplicam-se guerras civis intermináveis que se internacionalizam. O presidencialismo exauriu-se até nos EUA. O parlamentarismo também já não consegue, em diversos países, formar gabinetes ou assegurar governos minimamente estáveis após sucessivas eleições.
O princípio da não intervenção nos assuntos internos dos países foi abandonado. A soberania do Estado-nação é contestada sem cerimônia, do que é exemplo declaração do Collegium Internacional, organização que reúne intelectuais de renome e importantes líderes políticos, na obra “O mundo não tem tempo a perder” (coord. por Sacha Goldman), cujo subtítulo é “Apelo por uma liderança mundial solidária e responsável” agudizou o perigo da guerra. A obra citada prega o abandono do espírito de Vestfália, aludindo aos acordos firmados pelas grandes potências europeias em 1648, que ajudaram a promover um período de cento e cinquenta anos sem guerra generalizada na Europa.
Alguns físicos procuram o que os críticos chamam de “teoria de tudo”. Tal seria a compreensão unificada das forças fundamentais da natureza: a gravidade, força eletromagnética e duas forças atômicas, uma mais fraca e outra mais forte. Trata-se de uma busca até hoje frustrada. Reproduzir as lições das ciências da natureza nas ciências da cultura é um erro que levou ao descaminho do positivismo. O que até hoje não foi possível na Física é claramente impossível nas ciências humanas. Unificar a compreensão das crises nas relações familiares, na vida escolar, nos grupos de vizinhança e demais espaços da microssociologia; juntamente com a explicação das crises nas instituições jurídicas e políticas, nas relações econômicas e no trato da diplomacia praticada por governos é uma missão impossível, embora tais relações obviamente existam. Quanto maior o objeto de estudo, porém, mais superficial e duvidoso é o conhecimento assim produzido, o que nos leva a recusar uma “teoria de tudo” no âmbito social.
A ocorrência simultânea, a curtos intervalos, envolvendo aspectos econômicos, políticos e sociais em diversos países, assinalada por Fernando Henrique Cardoso com o neologismo “policrise”, convida a uma reflexão sobre a conexão entre os diversos aspectos do mundo em crise. Mas sem uma explicação geral, apenas como esforço de compreensão, nos termos da metodologia de Maximilian K. E. Weber (1864 – 1920), que distingue estas duas coisas. Não é a busca por uma suposta lei da história.
A dimensão global das crises guarda relação com o desenvolvimento dos meios de comunicação e de transporte; com a integração das economias; com a intensificação dos fluxos migratórios e com a mudança do aspecto vegetativo da dinâmica demográfica; com a difusão e a popularização de doutrinas perturbadoras, inclusive em suas versões vulgares, que no passado circulavam apenas em grupos restritos; e com o advento da tribuna franqueada a todos pelas novas tecnologias de informação. Tudo isso se relaciona com a “policrise”. Apontar solução global, porém, é temerário. Tais soluções, com o fortalecimento do Leviatã expandido para a governança mundial, conforme proposta de alguns, a exemplo dos intelectuais do Collegium Internacional, merece repúdio. A proposta citada é uma cópia da malfadada “teoria de tudo”, de alguns físicos e tem o odor de neocolonialismo.






