O mundo em crise. Por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Manifestações inquietantes se espalham pelo mundo. Não só além da fronteira meridional dos EUA ou em uma ou duas democracias ou ditaduras, mas em quase todo o mundo. Irã, França, Cuba, Venezuela, Reino Unido, EUA fervem. Constituintes são convocadas; multiplicam-se guerras civis intermináveis que se internacionalizam. O presidencialismo exauriu-se até nos EUA. O parlamentarismo também já não consegue, em diversos países, formar gabinetes ou assegurar governos minimamente estáveis após sucessivas eleições.

O princípio da não intervenção nos assuntos internos dos países foi abandonado. A soberania do Estado-nação é contestada sem cerimônia, do que é exemplo declaração do Collegium Internacional, organização que reúne intelectuais de renome e importantes líderes políticos, na obra “O mundo não tem tempo a perder” (coord. por Sacha Goldman), cujo subtítulo é “Apelo por uma liderança mundial solidária e responsável” agudizou o perigo da guerra. A obra citada prega o abandono do espírito de Vestfália, aludindo aos acordos firmados pelas grandes potências europeias em 1648, que ajudaram a promover um período de cento e cinquenta anos sem guerra generalizada na Europa.

Alguns físicos procuram o que os críticos chamam de “teoria de tudo”. Tal seria a compreensão unificada das forças fundamentais da natureza: a gravidade, força eletromagnética e duas forças atômicas, uma mais fraca e outra mais forte. Trata-se de uma busca até hoje frustrada. Reproduzir as lições das ciências da natureza nas ciências da cultura é um erro que levou ao descaminho do positivismo. O que até hoje não foi possível na Física é claramente impossível nas ciências humanas. Unificar a compreensão das crises nas relações familiares, na vida escolar, nos grupos de vizinhança e demais espaços da microssociologia; juntamente com a explicação das crises nas instituições jurídicas e políticas, nas relações econômicas e no trato da diplomacia praticada por governos é uma missão impossível, embora tais relações obviamente existam. Quanto maior o objeto de estudo, porém, mais superficial e duvidoso é o conhecimento assim produzido, o que nos leva a recusar uma “teoria de tudo” no âmbito social.

A ocorrência simultânea, a curtos intervalos, envolvendo aspectos econômicos, políticos e sociais em diversos países, assinalada por Fernando Henrique Cardoso com o neologismo “policrise”, convida a uma reflexão sobre a conexão entre os diversos aspectos do mundo em crise. Mas sem uma explicação geral, apenas como esforço de compreensão, nos termos da metodologia de Maximilian K. E. Weber (1864 – 1920), que distingue estas duas coisas. Não é a busca por uma suposta lei da história.

A dimensão global das crises guarda relação com o desenvolvimento dos meios de comunicação e de transporte; com a integração das economias; com a intensificação dos fluxos migratórios e com a mudança do aspecto vegetativo da dinâmica demográfica; com a difusão e a popularização de doutrinas perturbadoras, inclusive em suas versões vulgares, que no passado circulavam apenas em grupos restritos; e com o advento da tribuna franqueada a todos pelas novas tecnologias de informação. Tudo isso se relaciona com a “policrise”. Apontar solução global, porém, é temerário. Tais soluções, com o fortalecimento do Leviatã expandido para a governança mundial, conforme proposta de alguns, a exemplo dos intelectuais do Collegium Internacional, merece repúdio. A proposta citada é uma cópia da malfadada “teoria de tudo”, de alguns físicos e tem o odor de neocolonialismo.

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