Tempo de vaidades. Por Angela Barros Leal

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Era em côvados que se mediam os tecidos, os panos, as fazendas que aportavam às lojas de Fortaleza em meados do século XIX, sendo côvado uma medida arcaica, bíblica, a mesma imposta a Noé pelo comando divino para construção de sua arca, a mesma usada por Nabucodonosor para erguer uma estátua a si próprio, feita em ouro e prata, em ferro e bronze e barro, nas lendárias planícies da Babilônia.

Era em côvados que os comerciantes nos estabelecimentos próximos à Praça Municipal, a Praça do Ferreira, anunciavam, mediam e cortavam as fazendas, os panos, os tecidos que vestiam parte da população da capital do Ceará na década de 1850. Um côvado equivaleria a algo entre 50cm e 66cm, pouco mais, pouco menos, e quantos côvados Madame deseja, deveriam inquirir os vendedores, desdobrando sobre balcões as peças recém-chegadas de Pernambuco, da Corte, da Europa, acariciando entre três dedos da mão uma ponta do tecido a vender, comprovando maciez e textura, correndo a tesoura aberta, afiada, no sentido único do fio, ouvindo o gemido final da fazenda a se romper.

Quantos côvados deseja Madame da sarja espanhola verdadeira, desse corte para vestido de veludo de seda, com quatro babados ou três, desse aqui para um vestido de cambraia, bordado a agulha em todas as cores. E que tal essa peça de chamalote, seduziam eles, desdobrando no ar a peça inteira, a luz incandescente da rua capturada no furta-cor ondulado em tons de verde, dourado, vermelho, em tons de verde outra vez.

Traje de festa para os bailes e comemorações no Clube Cearense, no Clube Iracema, na Fênix Caixeiral, arrastando nos tapetes as bainhas em seda, em linho, no encorpado gorgorão, em cetim de Macau. O vestuário em veludo preto das viúvas perpétuas, para as celebrações da Semana Santa, para os chorados aniversários da perda, para a hora do chá. E os leques de pluma, alguns refletindo incrustações de espelho, as luvas macias, os lenços de franjas, dançantes como os das ciganas, em quase tudo presente o precioso fio que atravessava sete mares e meio mundo, esticado da China ao Ceará.

Vinham prontos os manteletes ornamentais para as senhoras e senhoritas, capas e capotilhos curtos agasalhando contra uma inexistente bruma inglesa, insinuando lareiras provençais à beira das camarinhas incendiadas pelo calor das tardes, lãs e veludos cor de uva pisada, cor de azeitona madura, incompatíveis com os cacimbões de água morna, com o sombreado das mangueiras nos quintais floridos, iluminados.

Vinham já prontos os chapéus de sol, a última moda em Paris, enfeitados para emoldurar os rostos e preservar trocas de olhares, prontos os vestidos em filó cor-de-rosa, branco, amarelo, cores perfeitas para os piqueniques nas chácaras familiares, as saias balão de cintura esguia, desenhadas para tirar o fôlego dos cavalheiros – e daquelas que as vestiam.

Dentro de casa transpiravam as senhoras em cassa, em fustão e flanela, embrulhadas ao fim do dia nos xales em gorgorão, arrastando no ladrilho as silenciosas chinelas de pano, um rastro de sabonete inglês, água de Colônia e cera de velas de Lisboa perpassando os aposentos nessa terra onde as estações são apenas duas, imersas em calor e mais calor.

Para o Cavalheiro o vendedor exibia o brim de linho entrançado, de um branco a ser mantido a duras penas pelas mãos escravas que o esfregariam, lavariam e engomariam, o ferro em brasa a chiar no contato com a goma, o cheiro da suada limpeza por tão breve tempo preservado. Para o Cavalheiro, os merinós próprios para roupa de montaria, os coletes achamalotados, a alpaca em leves fios, a seriedade dissonante da lã vinda de fora.

Adejavam nos armazéns, erguidos pelas mãos do vendedor, os lenços de seda para algibeira, as camisas francesas muito finas, as ceroulas francesas de linho, os sapatos de couro de lustro, os modernos suspensórios de borracha, os apreciáveis charutos, a carteira de marroquim, de mola ou de fechadura guardando os mil-réis.

Dos armazéns de Silva & Almeida saíam as roupas para crianças, cópia reduzida do vestuário dos adultos. Desidério Antônio de Miranda vendia “as melhores fazendas inglesas e francesas e americanas”, competindo com Manoel Antônio da Rocha Júnior, que comercializava pelerines de cambraia, sarja de flores, mantas de seda, e com a loja do Pernambucano, afamada por seus coletes à Bonaparte – todos eles medindo em côvados o nosso tão breve tempo de vaidades.

Angela Barros Leal é jornalista e escritora.

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