Folhetim de Santa Ozita – A curandeira que desafiou o governo do Ceará. Capítulo 1/7. Por Angela Barros Leal

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Assim como sua homônima bíblica, a pernambucana Jael Epifânia de Souza, nascida em 21 de junho de 1893, seria uma mulher muitíssimo abençoada. Precisamente no dia 6 de junho de 1946, durante prosaica refeição em família, ouvira uma Voz de misteriosa procedência delegando a ela o poder da cura. Mais tarde se saberia ter sido o mesmo poder estendido a duas de suas jovens filhas presentes àquela mesa, Ozita e Ariete.

Para felicidade de Jael, a Voz misteriosa se fez ouvir no momento em que a concorrência no setor se acirrava e ameaçava sua honrosa predominância, conquistada desde meados da década de 1940, quando vira recair sobre si a incumbência de curar os doentes que a medicina terrena desenganara, ou havia ignorado. E eles eram multidão. No segundo semestre de 1947, a romaria de enfermos, tendo como foco a casa de Jael, já se fazia notícia nos jornais pernambucanos.

Eram “pobres pagantes corroídos por toda sorte de males, que deixaram seus lares em busca do Recife, da cura desejada. Já não são 500 ou 600, mas milhares de pessoas”, diziam os periódicos da época, pessoas aglomerando-se na calçada, nas salas, nos quartos e corredores da casa na rua da Concórdia, implorando pela cura que viria dos passes miraculosos de Madame Jael e de suas filhas, “médiuns videntes e escreventes”, como definia a própria mãe.

Ozita e Ariete eram mostradas em fotografias nos jornais de 1947. Dezoito anos tinha Ozita, vestindo roupa fechada e escura, desprovida de enfeites, os cantos da boca apontando para baixo, o olhar perdido no infinito qual fosse idosa viúva d´além-mar, tão diversa da irmã Ariete, 16 anos, a encarar as máquinas fotográficas com o queixo proeminente erguido, o olhar de desafio mal e mal amenizado pelo vestido claro, pelos brincos de pingente e pelo anel no dedo.

Jael explicava aos jornalistas a gênese do dom familiar. Depois de terem recebido a ordem do Além haviam deixado de ir a festas e ao cinema, recolhendo ao baú as joias que possuíam – incluindo aliança de casamento, pulseiras, trancelins e dentes de ouro, estes substituídos por facetas de platina – para seguir “as normas de vida regradas e severas de verdadeira espírita”, muito embora os verdadeiros espíritas reagissem a ela.

O comando da Voz irradiara com igual potência para as duas mocinhas. Se a vaidade evidente de Ariete reduzira seu poder de cura, em compensação a força de Ozita se amplificara. Desde que a mãe começara a ter problemas de visão a jovem se mostrara digna sucessora no exercício dos dons, sendo apresentada, aos que a procuravam ou a ela eram gratos, como Ozita filha de Madame Jael.

E assim foi que a herdeira da seleta dinastia se ergueu à altura do renome materno. Entre 1947 e 1948 os dons curativos de Ozita passaram a ser largamente conhecidos e divulgados em Pernambuco, tanto pela narrativa oral daqueles atendidos por seus “passes” como pela veiculação permanente de agradecimentos a ela, na seção de pequenos anúncios dos principais jornais da capital.

Ali, roçando ombros com os anúncios de aluguel, de venda de mobiliário, de vermute italiano ou de ferro galvanizado enfileiravam-se fotos 3×4 e candentes testemunhos de quem havia sido curado por Ozita, nomes completos e endereços residenciais expostos aos leitores que duvidassem da veracidade do que asseguravam.

Elvira, Nelson e Apolônia, Clotilde, Ciríaco e Luzia, Amália, Iraci, Genésia e Joaquim, uma exaustiva sequência de rostos gratos “a Deus e a Ozita filha de Madame Jael”, agradecidos “a N. Sra da Conceição e a Ozita filha de Madame Jael” por tê-los curado do útero e da cabeça, das dores nas pernas e no umbigo, do retorcido no estômago, do descompasso do coração e dos intestinos, da vista embaraçada, da espinhela caída, dos nervos e dos rins, da falta de ar e da diabetes, o completo mapeamento dos órgãos, membros e sistemas do tão vulnerável corpo humano.

As bênçãos de Ozita manifestavam-se para além da sua pessoa física. Curava ela também em efígie, fato confirmado por uma certa Dona Joana, de Casa Amarela: “Eu estava com uma forte dor no estômago, vomitando das 4 da tarde às duas da manhã, e lembrei do retrato de Ozita. Coloquei-o em cima da dor e fiquei completamente curada”.

(Continua)

Angela Barros Leal é jornalista e escritora.

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