O Caleidoscópio. Por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

A velocidade dos acontecimentos, a instabilidade das relações e dos significados da pós-modernidade são realidades na política. Somos tentados a descrever tal quadro apresentando distintas imagens, com diversos significados, ao modo de um caleidoscópio. A famosa peça do renomado dramaturgo Luigi Pirandelo (1867 – 1936) “Seis personagens a procura de autor”, é uma destas possíveis visões. Nela personagens rejeitados pelo próprio criador tentam convencer o diretor da companhia a encenar suas vidas. No Brasil partidos sem povo e sem ideias procuram líderes; políticos sem soluções para os nossos problemas procuram eleitores para galgar ou manter posições; consumidores sem renda procuram adquirir bens e serviços; empresários procuram favores do Estado. São os personagens de Pirandelo a procura de um autor.

Todos esperam por alguma coisa. O ambiente é deserto. O tempo não passa, caracterizando uma atmosfera de eternidade morta, conforme palavras de Tancredo de Almeida Neves (1910 – 1985) segundo as quais “no Brasil os problemas não se resolvem, agravam-se”. O povo não confia nos políticos, mas deposita esperanças no Estado dirigido por aqueles de quem desconfia. É um quadro marcado pela eternidade dos problemas, com muitos partidos e chefes, mas sem agremiações e líderes autênticos. Sem novidades. O deserto de sempre. Uma eternidade na qual todos esperam pelo futuro. Agora o quadro é o da peça “Esperando Godot”, de Samuel Beckett (1906 – 1985). Nela dois velhos vagabundos estão esperando Godot. Mas quem é Godot? Não se sabe, como não sabemos qual é o futuro que esperamos.

Somos o país do futuro, ou éramos. Não temos muita sensibilidade histórica, o que nos coloca povo com pouco ou nenhum passado. Mas não perdemos esperança. Logo, esperamos pelo futuro incerto, o que é melhor do que a desesperança. A dinâmica demográfica está nos transformando em um país de idosos, os velhos que esperam Godot, sem termos alcançado o desenvolvimento que outros povos conquistaram antes de envelhecer. Estamos perdendo a corrida tecnológica. A desindustrialização está nos transformando em produtores de produtos primários, que agregam pouco valor.

Isso parece confirmar o pensamento de Eugênio Gudin Filho (1886 – 1986), que polemizou com Roberto Cochrane Simonsen (1889 – 1948). Este defendia a industrialização. Aquele dizia que indústria requer uso intensivo de capital, coisa escassa no Brasil. Precisaríamos restringir o consumo, que era muito baixo, para formar poupança; não tínhamos tecnologia e, na época, nem petróleo nem o carvão coqueificável necessário à siderurgia tão necessária à industrialização.

Fizemos a industrialização defendida por Roberto Simonsen, pagando o preço da inflação elevada pelo desequilíbrio fiscal com que fizemos investimentos; e os nossos indicadores de qualidade de vida permaneceram baixos pelo desvio de investimentos sociais para a industrialização. Éramos um “tigre asiático” fora da Ásia, antes dos asiáticos. Hoje a industrialização, obtida com tanto sacrifício, declina. Não atraímos os capitais abundantes, mantidos a juros negativos em todo o mundo desenvolvido. A hostilidade ao capital e o apego ao discurso que reivindica consumo sem renda e desfrute de bens sem investimento na produção, voltado unicamente para o distributivismo fiscal desanima investidores. Os personagens continuam à procura de um autor, como na peça de Pirandelo. Dois velhos, povo e economia, continuam esperando Godot, como na peça de Beckett. Somos perseverantes nos erros.

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