Guerra da Ucrânia: Um Negro no Salão Oval e o Republicano Fora de Moda. Por Ricardo Alcântara

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Ricardo Alcântara é publicitário e escritor.

 

Por ser negro (eles lá diriam: “afrodescendente”), com a carga simbólica evidente de sua eleição, a vitória de Barak Obama nos EUA despertou esperanças exageradas no parto de um paradoxo, o “imperialismo com empatia”. A realidade mostrou-se mais modesta. Seus esforços em dar uma resposta mínima para aquelas expectativas obtiveram êxitos muito aquém do que os símbolos de sua escolha portavam. Normal. Um presidente pode menos do que a lenda conta.

Agora, à medida que a invasão da Rússia na Ucrânia se consolida, a superficialidade sentimental da abordagem inicial da mídia vai cedendo espaço para uma leitura mais objetiva e plural sobre a gênese da crise. Chegada a hora de compartilhar responsabilidades, o nome de Obama volta a ser lembrado mais do que ele gostaria: foi seu governo que, contra reiteradas advertências até de republicanos conservadores, fomentou as causas originais dessa crise.

Em março de 2014 (ano em que Vladimir Putin começou a se preparar para esta guerra), um experiente quadro da política externa dos EUA, cujo legado é História, publicou um artigo no Whashington Post. Nele, Henry Kissinger, um oráculo da elite republicana, já advertia Obama de que à Ucrânia se deveria reservar um papel singular, como “elo de ligação, um espaço de convergência” entre a União Europeia e a Rússia.

Kissinger vaticinava que a insistência em atrair aquele país para a OTAN “reforçaria os temores de Putin, liquidando qualquer possibilidade de construir um modelo mais cooperativo” nas relações econômicas – o que deveria ser, para ele, o desfecho bem sucedido desse período histórico. A tese inquieta e autoconfiante de que Ucrânia seria a peça final no cerco da OTAN às fronteiras da Rússia, alimentada pelo governo Obama com metáforas democráticas e pouca reverência pelo orgulho russo, se revelou desastrada: Putin invadiu a Ucrânia e colocou em prontidão operacional seu arsenal nuclear.

E o Ocidente, que incendiou o coração de um comediante bom, mas inepto para a dimensão da tarefa outorgada pelo voto, agora fará o quê com tudo aquilo? Nada. Sanções econômicas, por mais duras, não derrubam aviões. Tirar a Rússia da copa do mundo não explode tanques. Os objetivos mais modestos de Putin (seu Plano B) estão muito próximo de serem atingidos: depor o governo Zelensky, arrancar um acordo de neutralidade e dar autonomia a Donbass e Donesk. E porque digo que estão próximos? Porque, na prática, já aconteceram. Essa parte é homologatória.

Hoje, o que menos importa é saber o preço que a Rússia haverá de pagar pela ousadia brutal da invasão porque o custo é elevado, mas não é impagável para o segundo maior exportador de petróleo do mundo. 40% do gás europeu sai de lá e qualquer bodegueiro da Bavária sabe quanto custará transportar da Nigéria em navios o que chega em sua porta hoje por meio de dutos. Essa coisa aí se ajeita. O Ocidente, sim, ficou, a longo prazo, com a parcela mais amarga dessa conta.
Digo “parcela mais amarga” porque não pode ser liquidada com riqueza material. Dispara um novo arranjo. A guerra da Ucrânia define o fim de um ciclo de expansão das forças do Ocidente – o chamado pós-Guerra Fria – e inicia outro, em que a cena se abre a outros atores

Gente que erra pouco nos laboratórios de estudos acadêmicos sobre relações internacionais na Europa tem apostado que a estreia da China como protagonista na mediação de conflitos internacionais em breve ainda será muito pranteada em Whashington. Preparem os lenços: os chineses, de milenar tradição nacionalista, agora serão vistos mundo afora com maior frequência. E, quando chegar lá, se haverá de contar essa história com início datado em 2014, quando um Obama era presidente e um republicano já meio fora de moda escrevia artigos como convém a um idoso: com apelos por prudência.
________
Ricardo Alcântara é escritor e publicitário

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Horas antes da prisão, Vorcaro enviou mensagem a Moraes, que respondeu no modo visualização única

Vorcaro teve prisão decretada em 2020, mas instituições falharam e a porta se abriu para os crimes em série

Apostas bilionárias e suspeitas antecipam ataque dos EUA ao Irã

Café da Serra de Baturité recebe selo nacional de Indicação de Procedência

Freio de arrumação no governismo do Ceará: ambições e a difícil engenharia da chapa de 2026

MP dos datacenters caduca e ameaça planos no Ceará, incluindo planos do projeto de R$ 200 bi no Pecém

Camilo, a missão, o ruído e o desconforto de Elmano

TikTok e Omnia contestam laudo do MPF sobre Datacenter de R$ 200 no Pecém

Do jeito que vai, eleição presidencial vai ser decidida pelo eleitor “nem-nem”

A política de segurança, a lógica do crime e os gigolôs da violência

PPP do Esgoto no Ceará: R$ 7 bilhões para universalizar saneamento em 127 cidades

Genial/Quaest: Lula segue com desaprovação maior que aprovação e perde fôlego entre independentes

MAIS LIDAS DO DIA

Países da AIE aprovam liberação recorde de 400 milhões de barris de petróleo em meio à guerra no Oriente Médio

Indústria de alimentos e bebidas fatura R$ 1,39 trilhão e representa 10,8% do PIB

Banco Central inicia retirada gradual das primeiras cédulas do real

Presidente da CPMI do INSS pede revisão de decisões do STF sobre depoimentos

Fortaleza registra maior inflação do país em fevereiro, aponta IBGE

Governo anuncia pacote para reduzir preço do diesel e conter impacto do petróleo