Prova de vida. Por Angela Barros Leal

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A primeira pergunta da gerente do Banco me desarma: onde está meu cartão de débito. Encontro-me ali presencialmente, tentando atender à exigência de prova de vida por não haver conseguido concluir o processo no computador de casa. Não sei onde anda o que ela me pede, se é que o tenho. A pergunta causa o primeiro abalo em minha existência. Que se agrava quando ela solicita o documento de identidade, e observamos que a carteira de motorista está vencida. Há dias, portanto, ando por aí inexistente.

Sem dar descanso, ela solicita comprovante de residência. Algo que comprove que resido em dado lugar, sob um dado teto (se não dado, pelo menos adquirido ou alugado). Todas essas informações já foram oferecidas em ocasiões anteriores, porém alguma dificuldade se interpõe. Não disponho de nada que documente tal fato, o que abala ainda mais nossa certeza sobre estar eu habitando espaço reservado a pessoas vivas.

Hoje de manhã segui a rotina dos vivos: lavei o rosto, escovei os dentes, penteei o cabelo. Caminhei, tomei os medicamentos que contribuem para meu bem viver, devorei uma tapioca com chá preto, e consegui me sentir cheia de vida. Começo a duvidar.

Qual sua senha, pergunta ela. Minha ansiedade aumenta. É uma conta que mantenho como poupança, e sequer me vem a pálida lembrança de haver, algum dia, naquele ambiente, combinado letras e números sigilosos. Arrisco uma senha possível, sem sucesso. Arrisco uma segunda, com igual resultado, e não ouso ir além: a conta que não uso pode ser bloqueada, e aí, sim, será ainda mais não utilizada.

Sou solicitada a apoiar o pulso direito em uma pequena máquina, repousando os dedos na outra extremidade, deixando livre a palma da mão para leitura, qual o fizesse para uma quiromante repousando em seu leito. A máquina silencia, fechando os olhos para a linha do coração, ignorando a linha da cabeça, desprezando a linha dos filhos, do trabalho, a linha da vida, a essa altura fundamental.

Meu coração palpita, se fazendo anunciar. Meus pulmões aspiram e expelem o ar. Sangue circula nas minhas veias, nervos se agitam, músculos se contraem. Assim como o poeta Castro Alves sentia em si “o borbulhar do gênio”, pressinto a desacreditada ebulição da vida em meu corpo. A moça solicita minha assinatura, levanta-se e sai da sala.

No decorrer de nosso breve contato, estou certa de ter ela percebido minha vitalidade. Trocamos cumprimentos, inquietei-me, sons foram emitidos de minha laringe, sentei e me ergui como um ser humano dotado de existência, porém nada disso parece ter atendido à demanda da jovem gerente.

Através das divisórias pouco espessas escuto trechos da conversa dela com um superior, logo do outro lado. A ideia de “outro lado” soa simbólica, sintomática, quase acusatória. Estou de um lado. Eles estão “do outro lado”. Do qual ela retorna, com amável expressão no rosto. O Sistema caiu, me informa, para mútuo alívio.

O Sistema, qual uma árvore de curtas raízes em noite de ventania, qual um muro de rasos alicerces, qual um ser humano de membros debilitados; o Sistema, como acontece com um fruto maduro, com as gotas da chuva, os dentes de leite, os fios do cabelo –, o Sistema caiu. Não há o que se dizer ante tal afirmativa. Nada a perguntar ou questionar. Trata-se de um enunciado sem contestações, tão definitivo quanto o informe da morte, e que, após ouvido, exige tão somente resignada aceitação.

Evidente que ela não detalha as razões da queda. Posso, portanto, imaginar o Sistema derrubado ao chão, talvez enroscado em seus dispositivos, enrodilhado em seus próprios cabos, fios, placas e conexões, danificado pelo tombo, tentando erguer-se, ou ser erguido, sem perda de tempo.

O Sistema às vezes se recupera logo, tranquiliza a moça, com a segurança de uma médica que conhece o paciente, pela primeira vez registrando minha presença física. Até o final da tarde deve estar de volta, ela assegura, e estou livre para retornar à minha não comprovada residência. E é o que faço semiviva, já que, oficialmente, minha existência não se encontra assegurada pelos órgãos oficiais.

Passo o restante do dia em crise existencial, em estado de suspensão como o afamado gato de Shröedinger na sua caixa, a respeito do qual não se sabe estar vivo ou morto até abri-la, refletindo sobre a estranheza que é viver sem provas.

No final da tarde a gerente me liga, irradiando simpatia. O Sistema voltou. Estou reconhecidamente viva e encho o peito em alívio, pensando na estranheza desse nosso mundo, no qual a realidade palpável da vida de alguém depende não da presença concreta, mas da confirmação de um Sistema que, tão frequentemente, se faz de morto.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

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