O poder do norte. Por Igor Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Uma das principais falhas na estratégia Russa contra a Ucrânia foram a incapacidade de prever a reação da população das nações ocidentais após a invasão no território ucraniano e como seus líderes reagiriam a esse fato. Na visão do Kremlin, a OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte – não teria capacidade de realizar uma ação coletiva e se tornaria mais fraca. Entretanto, o resultado real na OTAN foi justamente o contrário, pois o grupo tornou-se não apenas mais unido e coeso, mas também ganhou um objetivo claro: defender seus membros de futuras agressões promovidas pela Rússia.

A consequência mais clara e mais negativa para a Rússia está sendo a rápida mudança de mentalidade das populações da Suécia e da Finlândia, que agora apoiam massivamente a entrada de suas nações na organização. (Finlândia 62% e Suécia 59%). A Finlândia e a Suécia têm uma longa história de não alinhamento e neutralidade em segurança e defesa. Embora suas histórias com a Rússia não sejam isentas de conflitos violentos, e as suas estratégias e declarações de política externa de ambos tenham sido claras sobre a ameaça russa, a Finlândia e a Suécia optaram, até então, por permanecer militarmente fora da OTAN, mesmo apesar de contribuírem com debates, tecnologia e participação em treinamentos.

Com declarações claras de suas líderes, Sanna Marin, da Finlândia, e Magdalena Andersson, da Suécia, de que tais discussões estão ‘sobre a mesa’ e avançam diariamente, a tensão com a Rússia aumenta, e isso já se mostra um desastre para a política externa e de defesa da Rússia.

A Finlândia e a Suécia possuem militares profissionais de alta qualidade e com capacidades avançadas no mar, em terra e no ar. A Finlândia está adquirindo 64 unidades do jato de caça americano F-35, e a Suécia é produtora do caça Gripen, o mesmo adquirido pela Força Aérea Brasileira, de modo que o poder militar aeronáutico dessas nações é de ponta, de última geração, considerado um dos melhores da Europa do ponto de vista de tecnologia de defesa. Se a Finlândia se juntar à OTAN, a fronteira terrestre da aliança militar ocidental com a Rússia – agora considerada inimiga – passará de 1.300 quilômetros para 2.600 quilômetros, o que seria um pesadelo para a estratégia Russa e suas intenções.

Vale lembrar que segundo Jacob Wesberg, professor da Universidade de Defesa Sueca, “A Finlândia ainda tem o serviço militar obrigatório e estaria em condições de mobilizar um exército de 280.000 soldados para qualquer ação de emergência. É um exército bastante numeroso na Europa moderna”. Além disso, a Finlândia possui cerca de 900 mil soldados na reserva, o que tornaria a OTAN ainda mais equipada militarmente. A Suécia, por outro lado, não tem fronteira direta com a Rússia, porém, se também aderir à aliança, isso facilitará as operações da OTAN no Mar Báltico, pois todos os países da costa do Báltico fariam parte da aliança ocidental, com exceção apenas da Rússia. O desastre geoestratégico Russo seria avassalador, e isso tornaria a Rússia ainda mais isolada.

Neste contexto, e temendo as consequências imediatas dentro do conflito na Ucrânia, a Rússia ameaça novamente o mundo com o envio de mísseis nucleares para a região das nações bálticas, escalando o conflito para o norte da Europa e claramente tentando ameaçar as decisões de nações soberanas, como a Finlândia e a Suécia, a decidirem sua própria política de defesa. Vale lembrar que essas nações são mais ricas, poderosas e influentes do que a Ucrânia e que o nível de conflito diplomático ou militar com elas geraria desdobramentos completamente diferentes dos que assistimos nas fronteiras de Kiev.

Neste ponto, existe outra fundamental falha no pensamento estratégico russo. Isso nos leva a duas indagações: dado ao histórico de conflito com essas nações bálticas, em especial com a Finlândia, esperava-se mesmo que elas ficassem inertes devido à tamanha aventura expansionista de Moscou? O presidente Putin e o Chanceler Lavrov não conseguiram prever que não apenas elas, mas também outras nações, sentir-se-iam ameaçadas ao ponto de buscar aliar-se a nações ocidentais por temer serem as próximas vítimas de incursões militares?

O presidente da Lituânia, outra nação báltica, ocupada pelos soviéticos no passado e hoje membro da União Europeia e OTAN, afirma que a Rússia já possui armas nucleares na região e as novas ameaças seriam apenas uma estratégia vazia de uma nação cada vez mais isolada. O fato é que o Kremlin já prepara para aumentar suas defesas no norte do país, temendo uma imediata entrada da Suécia e da Finlândia na OTAN, o que de fato transforma qualquer suposta vitória na Ucrânia em algo de pouco valor.

Mesmo declarando publicamente que não existem disputas territoriais com a Finlândia e a Suécia, e por isso a ascensão dessas nações à OTAN seja vista de maneira diferente pelos russos, o fato é que as fronteiras russas ficam ainda mais cercadas pela OTAN e com mais bases americanas próximas ao território russo, ampliando a força geopolítica do Ocidente no leste europeu. Por outro lado, não deixa de ser uma escalação do conflito na Europa e mais um fator que dificulta o fim da guerra na Ucrânia em curto prazo. Entretanto, é importante lembrar que essa será de fato uma derrota para a Rússia caso essas nações confirmem sua participação no grupo e venham a retirar seu status de neutralidade. Ao mesmo tempo, essa será talvez uma das maiores mudanças geopolíticas do século XII.

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