Terceira via: uma quimera. Por Ricardo Alcântara

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Ricardo Alcântara é publicitário, escritor e colaborador do Focus.jor. 

A tentativa, tão noticiada quanto inútil, de criar ao centro uma candidatura alterativa à polarização entre a extrema direita de Bolsonaro e a esquerda de Lula — a chamada “terceira via” — se alimenta mais de uma esperança que agentes de mercado expressam através de seus obedientes canais na grande mídia, do que propriamente dos resultados que entrega.

Políticos que zelam por sua biografia já caíram fora dessa desventura cuja denominação, “terceira via”, já indica seu papel coadjuvante e secundário na trama eleitoral. Vale, para o caso, a paródia a um velho ditado que define bem no que toda essa coisa vai dar: “de onde menos se espera é que realmente não vem coisa alguma”.

A rigor, a tese é boa. Ao analisar as pesquisas eleitorais, é fácil perceber que há uma banda larga de interseção de eleitores que rejeitariam igualmente Bolsonaro e Lula e estariam, portanto, predispostos a olhar na direção de uma alternativa entre a incompetência brutal de um e o histórico de escândalos de outro, versões que os acompanham como uma sombra.

No entanto, a terceira via é hoje apenas um clube formado por candidatos de si mesmos: João Dória, Simone Tebet, Luciano Bivar e o quase desistente Sérgio Moro — nenhum deles conta com o apoio ostensivo de nenhuma liderança política de proa, dentro ou fora de seus próprios partidos. São vagões estacionados à margem dos trilhos.

A razão do fracasso: o princípio ativo do centro liberal é o fisiologismo. Em sua maioria, estão ali para obter oportunidades de participação abusiva na distribuição de privilégios e verbas públicas. Na real, é disso que se trata: são movidos mais seus interesses pessoais do que pelos postulados liberais que professam.

Grande parte da força política que poderia dar musculatura eleitoral a essas candidaturas está capturada por concessões oferecidas pelo governo federal. Outra parte está esperando o mar pegar fogo para comer peixe frito, isto é, aguarda o vencedor, seja ele quem for, para compor em sua base parlamentar em troca de benefícios.

Há, ainda aqueles que não se sujeitam a sacrificar posições de poder regional para dar uniformidade nacional a um projeto marcado pela incerteza. Estes irão fazer as composições necessárias à sua sobrevivência política com aqueles que comandam o poder local sob o lema proclamado por Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar, vida leva eu”.

Essa inconsistência programática da representação política de centro e, por decorrência, sua incapacidade de vender esperanças, é o que justifica a margem de apoio dada ao desastrado governo de Bolsonaro por aqueles 25% de eleitores que não se movem na direção da esquerda em circunstância nenhuma. Bolsonaro é o fracasso da Política.

Não é por acaso que o único candidato à margem da polarização, Ciro Gomes, não tenha recebido atenção dos caciques da terceira via. À parte o temperamento difícil do candidato, é a convicção com que se entrega ao debate programático o que nele mais assusta essa gente. Eles não querem assumir compromissos: querem se dar bem. Ponto.

Ao fim, nenhum candidato de centro chegou à largada da disputa com pelo menos 15% de intenções de votos. Não reúnem, portanto, condições para iniciar o processo de aglutinação e constituir um polo consistente na disputa eleitoral. A terceira via está enxugando gelo. É como concurso de miss: só existe, de fato, no noticiário. Não junta gente para ver.

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