Coisas que não entendo. Por Angela Barros Leal

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Luta de boxe ser considerada esporte. Por que a volta é sempre mais rápida do que a ida. Quem tem coragem de criar cachorro grande em apartamento pequeno. Gente que não responde ao seu bom dia. Gente que conhece você, mas finge não lhe ver. Coco secando no coqueiro sem uma alma caridosa por perto que o colha. Dizer “pois não” quando o que se quer dizer é sim. Gravata. Por que as tardes de domingo trazem a deprimente sensação de um domingo à tarde. Paletó ao meio dia. Horóscopo. Quem fala de si na terceira pessoa do singular. Ou na primeira pessoa do plural. Quem escreve usando palavras difíceis. Quem não gosta de ler. Quem mente descaradamente. O voo do mais pesado que o ar. Madrugar. Poucos muito ricos, muitos muito pobres. Instalações conceituais de Arte. O cérebro querer entender o próprio cérebro. Essa vontade que tenho de ver a Terra da Lua. Auto ajuda. O uso intenso das palavras empoderamento e oportunizar. Quem diz que vai guardar segredo e guarda. Gente que diz não gostar de falar mal de ninguém, mas… Quem busca em tudo um sentido oculto: às vezes, um charuto é só um charuto. Ter um milhão de “amigos”. Devolver um prato no restaurante. Quem sai na chuva não querer se molhar. Médico chamar “desconforto” o que nós, leigos, chamamos de dor. Manga com sal. Dizer que não se consegue comer mais nada e avançar na sobremesa. Quem devora a sobremesa e pede adoçante para o cafezinho. Ter cinco mil fotos no celular e nenhuma no papel. Quem lê um livro até o fim sem gostar dele. Ter medo de borboletas. Quem não teme baratas. A justificativa científica para a existência de baratas. Sair para os mesmos lugares, com as mesmas pessoas, e conversar os mesmos assuntos. Quem não pede desculpas, nem faz questão de agradecer. Salto agulha no trabalho. Salto agulha. Quem se leva a sério. Quem leva tudo a sério. Querer explicar algo a quem não quer entender. Espera interminável no telefone, ouvindo que minha ligação “é muito importante para nós”. Mensagem dizendo: Sorria! Você está sendo filmado! Quem fala muito e não diz nada. Pronome neutro. Genealogia. Gente incansavelmente otimista e sorridente. Pessimistas. Mesa de almoço silenciosa. Prestador de serviço que diz que vai, mas nunca chega. Quem diz que está chegando quando na verdade ainda está saindo. Por que erva daninha cresce tão rápido. Desculpas elaboradas demais. Dentista ansiando diálogo com o paciente durante procedimentos. A razão para não se usar caneta de tinta vermelha em documentos. Calvície afetar a cabeça e não a barba. Por que a grama do vizinho sempre parece mais verde. A rapidez com que todos nós aceitamos nos desfazer dos filtros de barro e seu gostinho de chuva. “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. O ovo ou a galinha? Quem malha na academia, e em casa é incapaz de se levantar para pegar um copo d’água. Bitcoin. Criptomoeda. Quem não se impacienta no trânsito. Donos da Verdade. Como bila virou bola de gude, raia se transformou em pipa, macaca em amarelinha e gigolete em tiara. Quando foi que boato virou fake news, e versão se converteu em narrativa. E quando imóveis pequenos e apertados passaram a ser aconchegantes e acolhedores. Como todos os caminhos ainda não me levaram a Roma. A estética das calotas dos pneus de carro. Conversas monotemáticas. Usar roupa de grife com a grife a mostra, sem ganhar nada pelo merchandising. Quem diz que “vai ser moleza”. Para onde voaram os vagalumes. Quem tem a solução para tudo e não faz nada. Soprar para esfriar o café e soprar para aquecer as mãos. Coisas ruins acontecendo com gente boa. Por que quando se é jovem se quer ser mais velho, e quando se é velho se quer de volta a juventude. Quem somos, de onde viemos e o que fazer hoje para o almoço. Música bate-estaca. Por que a fila em que estamos é invariavelmente a mais lenta. O que conversaríamos no elevador se não fosse esse calorão. Ou essa chuva que não para. Quem diz dessa água não beberei, esquecendo que as fontes são tão poucas. Jargão jurídico. Desrespeito aos mais velhos. Por que se calaram os sinos das igrejas. Matemática, física e química. Restaurante que oferece guardanapo impermeável. Quem pergunta, ao final da mais simples frase: “Entendeu?”. Pedir por dinheiro a Deus e a todos os santos, qual fossem eles um conglomerado bancário. Quem tenta mudar a opinião de alguém. Por que tudo que se precisa está sempre na prateleira mais alta. Dizer “até logo” a pessoas que nunca mais na vida iremos reencontrar. O imutável nervosismo do mercado. A indestrutibilidade do cupim. O prazer de acampar no meio do mato. Como vivíamos sem o celular. Como continuamos minoria, se no Nordeste existem 29 milhões de mulheres e 27 milhões de homens, de acordo com o IBGE. A linguagem cifrada das partituras. Por que razão o computador do caixa automático sempre trava na nossa vez. E por que o cidadão que se aproxima para dar uma ajudinha sempre tem cara de suspeito. Beber porque o time ganhou. Beber porque o time perdeu. Quem conta o que sonhou (“… aí eu estava numa casa, mas não era bem uma casa…”). Comprimento de saia inversamente proporcional à idade. A utilidade de uma equação de segundo grau. Quem dá um boi e uma boiada para entrar numa briga e não sair dela. Mensagens tipo “corrente” enviadas pela internet: meu WhatsApp é o lugar aonde elas vêm para morrer. Ter medo dos mortos. A morte.

 

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

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