A insuperável beleza da democracia. Por Angela Barros Leal

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De forma gentil, o Editor desse espaço cobra de mim um texto sobre as eleições que se avizinham. Nada demais, ele tranquiliza, zeloso de meu território avesso a excessos de realidade, e eu, obedientemente, escrevo: Ah, a Democracia!

Aproxima-se o momento do grande certame de um país livre, para o qual se voltam todos os olhos, engajam-se todos os corações. Pressente-se a inquietação geral para conhecer o Programa de Governo dos candidatos que disputam cargos majoritários: que direção pretendem dar ao País, ou ao nosso estado; como pretendem solucionar os problemas que afligem nossa terra; que dificuldades mais prementes serão sanadas; de que maneira imaginam desempenhar, com o melhor de suas forças, uma administração voltada para o povo, defendendo suas pautas com ardor “pero sin perder la ternura”.

Só que não –, como diria minha neta, enfronhada no linguajar despojado de hoje.

De meu modesto posto de observação, em ângulo voltado aos fatos corriqueiros e mais amenos da vida, sinto no ar o cheiro agridoce do sangue procedente de jugulares destroçadas; chega à minha boca o sabor do puro ódio, de diversas procedências, destilado em máquinas corrosivas; vejo diariamente, na Ágora popular que frequentamos, do conforto de casa, demonstrações contra e a favor de candidatos a cargos eletivos.

E olhe que ainda temos mais alguns meses de experiências, até o dia do jogo quadrienal, que exige fôlego olímpico, na modalidade Corrida aos Palácios.

De modo indireto já me dediquei a essa corrida, em passado remoto. Na função de publicitária, já redigi discursos para candidatos. Já produzi textos a serem impressos, ou emitidos, por vozes distintas. Já cedi minha mão de aluguel para organizar pronunciamentos no papel. Como um jogador de futebol, já vesti a camisa de ghost writer para uns e outros, formatando propostas que, na decantação de sua essência, me pareciam tão similares.

Ansiavam todos em oferecer mais Emprego e Renda; todos aspiravam alcançar a Educação universal; nenhum deles deixaria de persistir no atendimento pleno à Saúde de seus governados; investiriam todos em medidas que trouxessem Segurança a nós, seus sujeitos, dentro de nossas casas e nas ruas (aliás, a propósito de Segurança, assisti também, mais de uma vez, cenas do velho filme, de roteiro bíblico, quiçá shakespeariano, mostrando a criatura que se volta contra seu criador).

Pelo que vejo, pouco mudou. Os que querem se reeleger, ou ser substituídos por seus indicados, gritam que muito foi feito, mas muito ainda há para fazer. Os que se acotovelam para mudar o jogo esbravejam sobre a nulidade das ações empreendidas pelo adversário, e prometem correção de rumos.

Vamos, portanto, vivenciar novo período de propaganda eleitoral (não tão) gratuita, e acompanhar o conhecido roteiro dos candidatos em demonstrações de incontrolável carinho pelas crianças, idosos e animais domésticos; em cenas de interação popular previamente ensaiadas; em degustação de alimentos jamais presentes nas suas dietas; em tentativas de estabelecer conosco intimidades de infância, eliminada a formalidade dos sobrenomes – tudo isso ao som, em BG, de contagiante trilha sonora.

Vamos aguardar o calor de torcidas organizadas, dentro de partidos políticos nem tanto. A sucessão de pesquisas a serem benvindas ou condenadas, conforme as conveniências. Os rótulos de Istoista ou Aquiloista, que nos serão atribuídos.

E ainda, o triste desmonte de um arcabouço milenar de pensamento, idealizado para congregar pessoas que repartem uma mesma filosofia de mundo, reduzido – o mais das vezes – a um enunciado básico, porém capaz de esmaecer o mais esmerado Plano de Governo: gosto/não gosto do candidato, ou da candidata, qual fôssemos estabelecer com eles uma relação de amor.

E como, caro Editor, um texto sério necessita citações, seleciono referências a obras que não li, e a falas que não escutei, disponibilizados a um toque de dedos, para conceituar Democracia.

Para Millôr Fernandes, em cínica interpretação, “Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”. Na concepção desiludida de Oscar Wilde, democracia seria, “simplesmente, dizer o desencanto do povo, pelo povo, para o povo”. É de Winston Churchill a mais consoladora das citações: “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas experimentadas de tempos em tempos.”

Da minha parte, prefiro concordar com uma frase sem paternidade confirmada, porém atribuída aos grandes Eça de Queiroz, Mark Twain ou Benjamim Franklin: “Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente, e pelas mesmas razões”. Ah, meu caro Editor, aonde chegou a insuperável beleza da Democracia!

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

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