De volta a realidade. Por Igor Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Em meados do ano de 2009, o mundo começou a acompanhar uma significativa mudança no padrão das empresas, algo que se via como disruptivo e, em muitos casos, inovador. Grandes companhias internacionais começavam a se sentir ameaçadas por empresas consideradas pequenas, mas promissoras companhias, as chamadas startups.

Apresentando soluções rápidas, boa capacidade para escalar negócios, e principalmente por utilizar-se de bastante desenvoltura em tecnologia para ampliar sua base de clientes, essas empresas se espalharam por todos os setores da economia, em especial no setor financeiro, as chamadas fintechs.

Até o início da pandemia, essas empresas apresentavam forte ritmo de crescimento e principalmente eram vistas pelos investidores como uma oportunidade para ganhar dinheiro, apesar dos riscos. Alguns gestores às vezes por inexperiência e em outros casos com objetivos que não passavam de remunerar os acionistas para mudar o mundo, fraquejaram,  como foram os casos absurdos da Theranos e do Wework. Contudo, o que há de positivo é que a grande maioria dessas startups de fato tem o objetivo de crescer e desenvolver-se, prosperar e consolidar-se no mercado.

Entretanto, essas empresas em sua grande maioria não possuíam grandes investidores no seu início, e uma das características principais das startups é a busca de investidores no mercado, sejam as Venture Capital Companies, multinacionais já estabelecidas, ou muitas vezes bilionários procurando novas oportunidades. Dentro dessas apresentações, fica óbvio hoje que muitas dessas empresas exageraram suas projeções apenas na sua visão de mundo.

Seja por inexperiência, por falta de análise crítica, pela irresponsabilidade ou, em algumas vezes, até mesmo por indução ao erro, várias startups apresentavam cenários aos seus investidores baseados na falsa ideia de que o mundo continuaria na paz que vivíamos nos últimos 70 anos, que a inflação era algo do passado, principalmente nos países desenvolvidos e que as taxas de juros iriam continuar baixas, fruto do fim da crise do subprime de 2007. Em um cenário assim, acompanhado de um Quantitative Easing generalizado pelos Bancos Centrais, o mundo ficou extremamente líquido do ponto de vista financeiro, e a canalização de recursos financeiros para startups ficou mais fácil, mas ao mesmo tempo o negócio era mais arriscado.

Muitos investidores ao redor do mundo começaram a enxergar o forte crescimento da base de clientes das startups e das fintechs como uma possibilidade de fortes ganhos financeiros no futuro, e, como os títulos de renda fixa estavam remunerando os investidores com valores bastante reduzidos e a inflação controlada, fazia total sentido arriscar nesses tipos de investimentos, até porque o lucro seria natural e certamente viria, pois a conta era lógica e firme.

Contudo, é fato que toda grande empresa consolidada e com anos de mercado já passou por problemas macroeconômicos como crises econômicas, guerras, alta inflação, crises políticas e diversos fatores que afetam todos os aspectos de uma organização comercial ao longo das décadas. As startups, ainda não.

Em um mundo emergindo da pandemia da Covid-19, em cenário de conflito militar na Europa envolvendo uma potência nuclear e adentrando uma nova Guerra-Fria, as startups e as Fintechs começaram a entender que o modelo de crescimento baseado puramente no aumento da base de clientes e no aporte de investidores se tornou insustentável e agora o Capitalismo vai fazer o que sempre fez, selecionar e conceder direito à sobrevivência somente àquelas que geram lucros.

Do ponto de vista macro, a situação real é que agora existe uma competição direta sobre a remuneração do capital investido. Com a inflação chegando próximo aos dois dígitos até mesmo em nações desenvolvidas, com os Bancos Centrais aumentando as taxas de juros e diminuindo os estímulos financeiros, e principalmente com títulos de renda fixa do governo americano rendendo próximo de 3% em dólar e no Brasil títulos do tesouro direto pagando até 11,75% ao ano, os investidores começam a fazer contas, custos de oportunidade e tendem a ficar impacientes para obter lucros de seus investimentos nas startups e nas fintechs.

Esse cenário macroeconômico se avizinha como uma tempestade perfeita para os gestores desses novos empreendimentos que não tinham a mínima ideia de que enfrentariam diversos cenários adversos e competitivos durante seu período de crescimento. Neste sentido, as startups passam a mergulhar no caos do mercado, procuram diminuir a “queima de caixa” e realizam demissões em massa com um único objetivo: entregar lucros aos seus investidores.

Não é a toa que nos dias que sucederam a “Super Quarta”, quando os Bancos Centrais dos Estados Unidos e do Brasil aumentaram suas taxas de juros e anunciaram que continuariam a aumentar, as ações de diversas startups, em especial das fintechs, caíram vertiginosamente, em alguns casos, até 65% neste ano. Por outro lado, aquelas empresas tradicionais, que nos últimos anos eram vistas como “antiquadas” ou complexas, que muitos imaginavam como fadadas a desaparecer não estão em situação fácil, mas estão entregando dividendos, distribuindo lucros e continuando a crescer. Elas também não pararam no tempo. Definitivamente não estamos mais no momento de aguardar, aguardar e aguardar o crescimento. O cenário à frente apresenta mais inflação, mais taxas de juros e mais complicações no cenário internacional, logo o ‘céu de Brigadeiro das startups sumiu e agora vai ser bem mais complicado crescer. Até mesmo as autoridades chinesas hoje declaram que crescer como no passado não será mais tão possível.

Dentro deste contexto, a realidade se impõe, e as startups precisam virar empresas o mais breve possível.

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