A Fortaleza de Vinicius; Por Angela Barros Leal

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Vinicius de Moraes quando retaratado mais ou menos na idade em que fez uma pouco conhecida visita Fortaleza com o intelectual norte-americano Waldo Frank.

Vinicius de Moraes esteve em Fortaleza em setembro de 1942. Era um jovem crítico de cinema, escrevia para o jornal fluminense A Manhã, estava prestes a completar 29 anos, e trazia na bagagem a vivência na Universidade de Oxford, graças a uma bolsa de estudos concedida pelo Consulado Britânico em 1938. Lá estudara língua e literatura inglesa.

Havia publicado quatro livros de poemas, recebido prêmios e estabelecido laços de amizade com outros jovens escritores da época, embora não fosse ainda “o” Vinicius de Moraes que viria a ser. A carreira no Ministério das Relações Exteriores teria início no ano seguinte, e se apresentava como adequada meta para um integralista confesso, disposto a representar o Brasil no exterior.

O domínio da língua inglesa o levara a traduzir, para o jornal no qual trabalhava, trecho de um livro do intelectual e escritor norte-americano Waldo Frank, um interessado em assuntos da América Latina, nascido em 1889. Seria esse o passo para a aproximação entre Vinicius e Frank, a diferença de idade estabelecendo uma relação de “quase pai”, como escreveria Vinicius na revista Diretrizes.

O americano viera ao Brasil como parte do fortalecimento das relações entre os dois países, em tempos de guerra. Interessado em conhecer mais, além do Rio de Janeiro, Frank planejou uma viagem rumo ao Nordeste e ao Norte. Embora falasse bem o espanhol, ainda precisava de alguma ajuda no idioma português, e de um guia de confiança que o auxiliasse a entender melhor alguns aspectos do País. O jovem Vinicius preenchia todos os requisitos e o acompanhou como secretário.

Embarcaram ambos em um Clipper da PanAmerican, com destino a esse vago “Norte”. Os jornais do Rio noticiaram o roteiro: Salvador, Recife e Belém, de onde Frank partiria rumo a Miami. Aparentemente, Fortaleza não constava na lista das cidades visitadas.

No entanto, o jornal A Noite, de 25 de setembro de 1942, registra notícia procedente da capital cearense: “Pernoitou nesta Capital o escritor norte-americano Waldo Frank, que em companhia do Sr. Vinicius de Moraes realiza viagem ao extremo Norte do Brasil”.

Na imagem, uma visão da Praça do Ferreira com os edifícios Excelsior e São Luis à espreita. Anos antes, Vinícius de Moraes perambulou por essas ruas e praça.

Ora veja. Cá estavam os dois em permanência breve, descendo as escadas do avião da PanAm e seguindo para o Excelsior Hotel, aproveitando o período noturno para terem uma rápida ideia do que era aquela cidade fora do roteiro. “Durante a noite” – prosseguia a notícia do jornal, os visitantes passearam de automóvel e declararam “jamais ter pensado encontrar, em pleno Nordeste, uma cidade de tão notável progresso como Fortaleza”.

O que teriam avistado, o americano e o carioca, pelas janelas abertas do automóvel: ruas centrais em traçado xadrez, pavimentadas a paralelepípedo e a concreto, boulevards arborizados, praças ajardinadas, o Theatro José de Alencar, edifícios altos, como o que abrigava o Cine Diogo, residências de onde saíam às compras senhoras de luvas e chapéu.

Devem ter sido informados que a cidade dispunha de “serviço de telefones automáticos, água e esgoto, luz elétrica, excelentes hotéis e modernas casas de diversão”, além de automóveis, ônibus e bondes, sendo ainda “um importante e movimentado centro de cultura e intelectualidade”, como registra o Almanaque do Ceará para o ano 1941.

O que disse Vinicius sobre Fortaleza, em artigo escrito para a revista Vamos Lêr, em 1943: para ele, existiam cidades masculinas e cidades femininas. Rio de Janeiro e São Paulo se encontrariam na primeira categoria. A capital cearense ocupava espaço na segunda categoria, “uma cidadezinha tão feminina como outra não há no Brasil”.

E poetava: “Lembra uma adolescente de olhos verdes, quase cabocla, namoradeira, fresca e limpa no seu vestido estampado, com aquela praça centrífuga da vida toda da população”. Não chegara sequer a gravar na memória o nome da praça do Ferreira, mas pode-se dizer que, ao elaborar tão delicada síntese, já estava perdoado.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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