
O candidato a governador Ciro Gomes tem feito correções em seu discurso desde quando se lançou ao desafio de liderar a oposição na eleição deste ano. Não sofreu mudanças de rumo ou interferência de gestos erráticos. No entanto, alterou a dosimetria com que distribuiu suas críticas, moderando umas e agravando outras.
De início, prometia uma devassa radical na contabilidade dos governos recentes para, ao fim, objetivamente reduzir o arsenal a um queixume frequente – em propaganda, repetir é fundamental – sobre a aplicação da fracional receita destinada a manter oito equipamentos culturais. De ato próprio, a montanha pariu um rato.
Quando, em debates de candidatos, foi confrontado ao fato de que não há registro de investigações sobre o assunto, Ciro esquivou-se com outro tiro para cima: o Ministério Público, segundo ele, estaria “aparelhado por lideranças do PT no estado”. Indícios apresentados a quem cabe o ônus da prova? Nenhum.
Então, achei por bem conferir se há mesmo consistência no modo como o governo se defende, à falta de suficientes elementos na virulência de quem o atacava. Fui aos arquivos, agora digitais, e lá encontrei material suficiente para um longo ensaio, mas não irei testar a paciência do caro leitor.
O Ranking de Competitividade dos Estados (Centro de Liderança Pública, 2026) aponta o Ceará como líder na região Nordeste nesse aspecto, fundamentado, segundo a fonte, “no equilíbrio entre a responsabilidade fiscal e a entrega de serviços essenciais” e 3º Lugar do Brasil em capacidade de injetar recursos públicos em infraestrutura e desenvolvimento social.
No setor público, competitividade significa “capacidade de planejar e executar políticas capazes de gerar bem-estar social e atratividade econômica”, de acordo com a Economist Intelligence Unit, parceiro do estudo. Vamos combinar: um estado pobre não chega nisso aí “desmantelado” (o termo é de Ciro em debate).
É preciso uma boa margem de racionalidade na aplicação dos recursos disponíveis, apesar dos desequilíbrios crônicos na distribuição espacial das riquezas do país e, mais profundamente ainda, na concentração de renda. Nada disso é obtido sem “qualidade no ambiente de negócios fornecido pelo setor público”, segundo o relatório do CLP de 2026.
Há mais a ser dito, mas o fundamental, para efeito do assunto em pauta, é perceber que as gestões recentes no Ceará, ciclo iniciado há vinte anos, seguem, em curso ascendente, e com maior esforço em inclusão social, o período iniciado pela geração na qual Ciro Gomes atuou com protagonismo, desde os anos finais da década de 80.
Não parece haver, no debate que se observa nas conversas “dos cafés e dos abrigos”, questionamento frontal à experiência de Ciro. Mesmo o eleitor que o rejeita, não o rejeita por isso. Mas esse “deixa comigo que eu resolvo tudo” com que o candidato constroi sua narrativa não toca o sentimento do eleitorado com a amplitude que ele desejaria.
Tudo isso o fez buscar refúgio num tema de maior apelo emocional, Segurança Pública, e assim o candidato vem à reta final em condições de disputa, mas muito assemelhado aos seus aliados de extrema direita e apoiado em propostas que não se mostram suficientes para fazer do Ceará o território onde o crime organizado não ousará mais pôr os pés.








