“Feio é perder eleição”, anônimo
“No Brasil, há leis duras e leis moles. As moles a gente passa por cima. As duras, a gente passa por baixo”, coronel Chico Heráclio, chefe político e cientista político “prático”
Paulo Elpídio de Menezes Neto
As emoções pré-eleitorais que se anunciam a partir deste dia 4 de outubro não apresentam o ar festivo das efemérides cívicas, com a celebração dos ritos democráticos próprios às sociedades politicamente estáveis.
O clima é, bem ao contrário, pesado, carregado de dúvidas e incertezas.
Não por acaso, vivemos, pelos últimos quatro anos, durante os quais compartilhamos governos populares, autonomeados de “progressistas”, um clima de campanha eleitoral permanente, em tempo integral.
Os vinte anos, durante os quais foram consumidos três mandatos de Lula e um e meio de Dilma, podem não ter mudado a cara do Brasil. Na verdade, nunca saberemos ao certo se, em algum momento, quisemos mudar, para valer, o espectro persistente das nossas raízes fundadoras. As nossas “populações originárias” — portugueses, africanos e indígenas autóctones — deixaram impressas bem fundas as marcas culturais que não conseguimos apagar até hoje. Ou não quisemos mexer nessa herança, magnificada mais recentemente pelas suas características identitárias, em cujos entroncamentos buscamos indícios de uma civilização “brasileira”.
O país mergulhou, no correr dos vinte anos recentes, em um “eleitoralismo” permanente, animado por uma polarização crescente de ideologias infiltradas pela militância partidária e por uma miríade de movimentos sociais custeados pelo governo.
O breve interregno do governo Bolsonaro, com a derrota do seu desejo de reeleição, em 2022, acentuou o aprofundamento dos conflitos entre esquerda e direita, o que quer que essa ficção possa significar.
Nestas vésperas de grandes feitos e promessas, cujo esplendor vai perdendo a magia das festas republicanas do passado, predominam pressentimentos agourentos de cenários ameaçadores.
Fizemo-nos nação e país, nestes cinco séculos vencidos, encaixados em um vasto território devoluto, carecidos dos instrumentos civilizatórios essenciais e dos impulsos de uma ideia de progresso e de futuro.
As potencialidades econômicas brasileiras escondem-se sob as práticas de antigas atividades do passado, o agronegócio e a mineração, fontes maiores e principais da nossa economia de exportação.
O invólucro patrimonialista da sociedade brasileira subsistiu, entretanto, com a consolidação de posição distinguida nos negócios de “commodities”, marca do que mais produzimos e vendemos. Os minerais mais raros e críticos não passam de matéria bruta de comércio “in natura”.
As raízes oligárquicas da sociedade brasileira acompanham essa estrutura primitiva da construção das nossas riquezas.
Para completar, as disfunções estruturais do sistema político que conseguimos construir, improvisando sobre experiências malsucedidas, mantêm vivas velhas relações incestuosas da fazenda pública com a privada.
A fragilidade das instituições que adotamos como nossas só não foram maiores do que a rapacidade do estamento político e de seus dignitários, agentes públicos a serviço do Estado.
É dessa laboriosa amálgama de poderes e vassalagem e de uma ideia peculiar de organização política — que é feito o Brasil.
É este cenário que está preparado para o próximo governo e para o tempo que essa armação possa durar. Quatro anos de contas para fechar, de promessas mal cumpridas, de histórias mal contadas e narrativas incertas e propositadamente bem desenhadas.
Esquerda, direita, com o sacrifício de todas as esperanças e do que sobrar dos sonhos perdidos de liberdade.








