A volta de Mister Hinds. Por Angela Barros Leal

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Dear Mister Thomas Hinds. Por uma casualidade, deparei-me com referência ao senhor em notícia assinada por seu amigo Raul Carneiro, publicada no jornal A Razão, datado de agosto de 1936. Embora a notícia lamentasse seu falecimento, em data não determinada, por outro lado trazia alguns detalhes sobre sua pessoa, e sua vida no Ceará.

Fiquei sabendo, assim, ter sido o senhor um dos primeiros barbadianos aqui radicados, quem sabe o primeiro, tendo arribado por essas bandas Deus sabe precisamente quando, ou exatamente como. Peço perdão por arriscar a hipótese óbvia: a de que o senhor tenha vindo de navio, partindo de Bridgetown, capital de Barbados, desembarcando em Fortaleza de um vapor da Hamburg-Amerika Linie, que por volta da época da sua chegada – virada do século XIX para o século XX – mantinha como agentes locais os conhecidos empresários Boris Frères.

Devia ser de seu pleno conhecimento o roteiro traçado no trecho entre Hamburgo e a América, percorrido pelos 250 vapores de primeira classe disponíveis para servir a capital cearense, com três visitas por mês, fazendo escalas em Nova Iorque, Saint Thomas, Barbados e Ceará, retornando pelo Maranhão, Pará e Manaus.

Sua Barbados nada mais era – e nesse sentido, claro, não mudou – que minúscula ilha caribenha, parte das Antilhas Britânicas, distante quase 3 mil km do Ceará, conhecida pela produção de açúcar, melaço, fumo e, em tempos ainda mais antigos, pelas incursões de piratas e corsários brindando conquistas.

Estes são alguns fatos. No entanto, como é pouco o que sei sobre sua pessoa, me dou ao luxo de misturá-los com suposições. E assim o imagino cinquentão, trocando seu serviço a bordo de um dos elegantes vapores pelo amor súbito a essa terra. Digo cinquentão por ter se dado seu falecimento aos oitenta e tantos anos, após mais de três décadas residindo aqui, e digo prestador de serviço, e não ilustre passageiro da primeira classe, por saber da vida modesta que levou em nossa terra, ensinando inglês aos fortalezenses.

A partir da narrativa de seu contemporâneo Raul, sei que o senhor não aparecia aos olhos cearenses como mais um entre tantos de nós, capazes de transitar pelas calçadas estreitas da cidade sem despertar atenção. No cenário de uma capital provinciana, seu tipo físico “alto, magro, esbelto, muito preto, preto de luzir, usando uma barbicha que arrematava por uma trança, que escondia dentro da mesma pela parte de trás” destacava sua aura de figura original, “com um quê muito pronunciado de respeitabilidade e imponência”.

Portanto, em passos imponentes e respeitosos imagino o senhor em sua caminhada, ignorando olhares inconvenientes, tocando a aba do chapéu, curvando a cabeça em cumprimento aos passantes, até entrar nas salas de visita onde ensinava o idioma da Rainha Vitória.

Sei que o senhor não renegava a malemolência do inglês falado na sua terra natal: chair era dito chíar; here dizia híar; there, dzíar. Sei que ensinava o que sabia, como aprendera, compensando as arestas da ausência de métodos, e do desconhecimento gramatical, com as dobras macias de sua bondade e delicadeza.

Sei ainda que seu aniversário era comemorado a 21 de agosto, no penúltimo dia dos nascidos sob o signo de Leão, e sei também que o senhor pertencia à Igreja Anglicana. Porém desconheço se, aos domingos, o senhor unia-se aos bem-sucedidos ingleses da cidade, a orar em um dos poucos templos “protestantes”, como eram chamados.

À noite, sozinho em sua casa – que presumo fosse perto do mar –, o senhor costumava dedilhar sua harpa, querida companheira de nostalgia da sua pátria e mocidade, entoando à luz da lua, em quase surdina, os cantos da sua ilha. Tamanho era seu apego a essa “harpazinha”, mencionada sem as merecidas explicações por seu amigo Raul, que o senhor deixou a determinação expressa para que fosse ela colocada em seu caixão (o que me parece tão inglês), a acompanhá-lo em sua viagem final.

Raul assegura que toda a cidade o conhecia, e que sua lembrança iria perdurar por muito tempo, viva e saudável, no espírito dos que haviam usufruído de sua amizade. Pois não se deu assim, Mister Hinds. Lamento informar que tais lembranças não perduraram, mas não por sua culpa. A capacidade de armazenamento do nosso baú de memórias parece ser bem menor que a dos baús de tesouro escondidos em sua Barbados.

E se hoje envio essa mensagem é por uma espécie de dever de justiça, para recuperar seu vulto elegante percorrendo nossas ruas calçadas de pedra, sua fineza no trato conosco, sua pronúncia tão peculiar, suas canções à meia voz, à sombra enluarada dos ipês em flor, e para relembrar sua companheira fiel, a harpazinha que o acompanhou até o fim. Por alguns minutos que seja, tenho a honra de trazê-los de volta.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

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