Esquerda, direita ou volver?

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho Rodrigues
rui.martinho@terra.com.br
A política é a arte do possível. Aliança se faz com o diferente. Os seus limites, porém, são imprecisos e ocultam armadilhas. A política envolve considerável margem de imprevisibilidade. Personagens inteligentes e hábeis podem pisar em laços. A sagacidade da raposa, de que Maquiavel (1469 – 1527) falava é necessária.
Ciro Gomes, com sua inteligência, facilidade de expressão e ânimo de afirmá-las com vigor, desfruta das vantagens e desvantagens de tais atributos. Compreendeu bem a dinâmica do processo político. Percebeu o deserto de líderes do momento e a enorme lacuna da conjuntura política, decorrente disso. Foi cortejado por integrantes do PT, como o senador Jaques Wagner, e de outros partidos de tendência socialista. Lula, todavia, colocou obstáculo em seu caminho. O caudilho de São Bernardo não perdoa quem tem potencial de crescimento, podendo ameaçar o seu reinado. Stalin cresceu dentro do PCUS porque se fez de medíocre, obtendo o cargo que foi negado a outros havidos como capazes.
Desiludido com os socialistas, Ciro buscou apoio dos partidos do chamado “centrão”. Assumiu o risco eleitoral da aproximação com figuras desgastadas pelos escândalos por ele mesmo tantas vezes proclamados. O acordo não saiu. O mestre florentino, aqui citado, recomendava, além da esperteza da raposa, para evitar os laços, a força do leão, para afugentar os lobos. Ciro foi mais leão do que raposa. Afugentou o “centrão” e as chamadas esquerdas.
O ex-ministro Delfim Netto, cuja inteligência e o saber são amplamente reconhecidos, também tem grande facilidade de expressar argumentos bem articulados. Saiu do governo Figueiredo e elegeu-se deputado sucessivas vezes, sem precisar fazer campanha. Quando Lula foi eleito presidente, Delfim o apoiou. O grande economista sabe que aliança se faz com o diferente e isso é da essência da política. Não sabe, porém, porque ninguém sabe, quais são os limites para tais manobras. Depois da aliança com os governos do PT Delfim ficou sem mandato. Colocou-se fora da polaridade esquerda/direita e perdeu a confiança dos antigos eleitores, mas não o apoio dos novos aliados. A polarização exacerbada do momento não parece receptivas aos roteiros sinuosos. Uns são reconhecidos como direita, outros como esquerda e outros como volver. O isolamento destes é a tendência do momento. A eleição de 1989 e a atual tem alguma semelhança. A polarização é uma delas. A estrutura partidária e o tempo de televisão de nada valeram aos candidatos que mais contavam com tais trunfos: Ulysses Guimarães e Aureliano Chaves tiveram votação pífia. Ressalte-se que naquele ano nem existiam as redes sociais.
Inteligência e agilidade podem trazer desvantagens. Rui Barbosa, grande erudito, não deixou nenhum tratado. Era o homem do discurso improvisado. O nosso Quintino Cunha, repentista de grande talento, não deixou nada escrito de que se tenha notícia. A agilidade desvia do caminho da reflexão. A capacidade dos Ferreira Gomes, demonstrada na liderança construída no Ceará, poderá dispensar as alianças, mas precisará de cautela para evitar os laços. A força do leão, para afugentar os lobos, não será no âmbito nacional, tão importante como no Ceará.
 

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